As escolas abriram na segunda-feira em Myanmar, pela primeira vez desde o golpe de 1 de fevereiro, quando professores e estudantes estão em greve e recusam trabalhar e estudar com a junta militar no poder.

Os professores foram um dos primeiros grupos de funcionários públicos a juntar-se ao movimento de desobediência civil lançado em oposição aos militares em Myanmar (antiga Birmânia).

Os professores lideraram múltiplas manifestações contra os militares em todo o país, na sequência do golpe que pôs fim a uma década de democracia e liberdade no país.

As autoridades responderam com violência contra a oposição, recorrendo ao uso de armas de guerra contra manifestantes pacíficos, e à perseguição de qualquer pessoa envolvida com o movimento de resistência.

A junta militar deteve mais de 100 professores e emitiu mandados de prisão para dezenas, bem como suspendeu cerca de 130 mil do posto de trabalho, com interrupção do pagamento do salário, de acordo com a Federação de Professores birmaneses, embora o grupo tenha reafirmado que não irá trabalhar para a junta.

"Têm medo da resistência. É por isso que estão a tentar ameaçar-nos para voltarmos à sala de aula", disse o professor Soe Thura Kyaw, que foi acusado de incitamento e enfrenta até três anos de prisão, ao 'site' de notícias Myanmar Now na semana passada.

Durante o último ano escolar, suspenso na sequência da pandemia da covid-19, mais de nove milhões de crianças foram inscritas, de acordo com dados do anterior Ministério da Educação, destituído na sequência do golpe militar.

Para este ano letivo, 90% dos estudantes recusaram inscrever-se no sistema educativo sob o controlo dos militares, de acordo com dados da Federação de Professores da Birmânia publicados pelo Myanmar Now.

Em várias escolas do país surgiram 'graffiti' com apelos à revolta contra os militares ou ao boicote do sistema educativo.

Em algumas ocasiões, foram também pendurados uniformes manchados com tinta vermelha para denunciar a violência das forças de segurança, que causaram pelo menos 840 mortos, de acordo com a Associação de Assistência aos Presos Políticos, que contou mais de 5.500 detenções desde a revolta.

O exército justificou o golpe por uma alegada fraude eleitoral nas eleições de novembro, ganhas, tal como em 2015, pelo partido liderado pela Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, com observadores internacionais a negarem a existência de qualquer fraude.

/ RL