A prisão de Guantánamo, situada na Base Naval da baía com o mesmo nome, em Cuba, foi criada em 2002 para albergar os suspeitos de terrorismo contra os EUA e é um dos maiores símbolos da “guerra contra o terror” declarada pela administração de George W. Bush. Durante anos, foi, também, alvo de polémicas em torno de alegadas violações de direitos humanos, ainda que o Governo dos EUA afirmasse que a prisão não estava sujeita às regras da Convenção de Genebra. Por este motivo, Guantánamo viria a transformar-se em promessa eleitoral de Barack Obama, que, em 2008, garantia fechar a prisão militar. Praticamente oito anos depois, já no final do segundo mandato, Obama ainda não cumpriu.

Logo quando assumiu a presidência, Obama assinou um decreto que ordenava o encerramento da prisão que chegou a ter 680 detidos em 2003, segundo a Associated Press (AP), mas o Congresso norte-americano impediu a sua concretização, principalmente porque presumia a transferência de prisioneiros para estabelecimentos prisionais nos EUA. Ainda assim, o número de suspeitos foi decrescendo ano após ano, situando-se em 60 atualmente.

Obama é o presidente dos norte-americanos apenas por mais dois meses e se não conseguir fechar Guantánamo até à entrada da administração de Donald Trump, a prisão pode não só continuar aberta, como voltar a crescer. Em abril, enquanto candidato, o próximo presidente dos EUA prometeu manter Guantánamo aberta e "ocupá-la com ‘tipos’ maus".

É verdade que não conseguimos fechar [Guantánamo] devido a restrições do Congresso, mas também é verdade que conseguimos reduzir significativamente a população [da prisão]. Temos muito menos que 100 pessoas lá e há transferências que podem acontecer nos próximos dois meses”, afirmou Obama, em conferência de imprensa na segunda-feira.

Fonte oficial disse, à AP, sob condição de anonimato, que a situação de 20 dos 60 detidos já foi analisada, e a sua transferência autorizada, e espera-se que um “número significativo” destes presos ainda deixe Guantánamo antes que Obama saia da Casa Branca.

No entanto, enfrenta oposição de políticos e oficiais, como os procuradores gerais dos Estados do Kansas, Carolina do Sul e Colorado, que já reiteraram não quererem receber prisioneiros de Guantánamo, depois destes Estados terem sido anunciados como destinos para alguns dos detidos.

A preocupação de grupos de ativistas e de apoiantes do encerramento de Guantánamo é que a prisão venha a albergar novos suspeitos de ligações ao terrorismo – a grupos como o Estado Islâmico, que Trump prometeu destruir – e se torne palco de novos abusos de direitos humanos, com prisioneiros detidos indefinidamente sem uma acusação e/ou sujeitos a torturas.

Durante a campanha, Trump mostrou-se favorável à reintrodução do método conhecido como waterboarding – que consiste em tapar a cara de um prisioneiro amarrado enquanto se deita água sobre a zona da boca – e outros métodos “piores”.

Temos pessoas que cortam cabeças de cristãos e de muitos outros. Observamos coisas nunca antes vistas. Desde a Idade Média que não vemos coisas como atualmente. [Por isso], traria de volta o waterboarding e bem pior que o waterboarding”, afirmou Trump durante um dos debates entre os candidatos republicanos.

Veja o vídeo de uma simulação de waterboarding logo abaixo.

Naureen Shah, diretor do programa para a segurança e direitos humanos da Amnistia Internacional, acredita que ainda é possível fechar a prisão, antes que Trump assuma o poder.

[Barack Obama] sabe o que está em jogo e sabe que não pode deixar a porta de Guantánamo aberta para Donald Trump”, disse o ativista à AP.

Um dos prisioneiros que ainda está em Guantánamo é Khalid Shaikh Mohammad, um homem que admitiu planear os atentados de 11 de setembro de 2001. Juntamente com quatro outros suspeitos, Mohammad aguarda julgamento, que tem sido atrasado devido às alegadas torturas praticadas contra o suspeito enquanto esteve sob custódia da CIA.

Porém, por Guantánamo passaram muitos inocentes, como Mustafa al-Aziz al-Shamiri, um soldado iemenita que esteve detido 13 anos na prisão militar, por ter sido confundido com um membro da Al-Qaeda no Afeganistão, que atuou em redes terroristas como mensageiro e instrutor.

Os defensores do encerramento do campo dão exemplos como o de al-Shamiri para justificar o fim de Guantánamo, para que situações destas não voltem a acontecer.