"Pensava que hoje era o meu 90.º dia, mas fiz as contas e é o meu 92.º. Isto surpreende-me". As palavras são de Hassan al Kontar, o cidadão sírio que desde 7 de março está retido no aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia, por falta de um passaporte válido.

Em 2006, Hassan al Kontar, atualmente com 36 anos, viajou para os Emirados Árabes Unidos para trabalhar e fugir ao serviço militar na Síria. Até 2011, o sírio conseguiu trabalhar nos Emirados sem qualquer problema. No entanto, a partir do momento em que a Síria entrou em guerra, começaram as dificuldades legais.

Um ano depois da guerra começar, a embaixada da Síria nos Emirados recusou renovar-lhe o passaporte. Hassan al Kontar acabou por ser deportado para a Malásia, país que permite os cidadãos sírios obterem um visto direto no aeroporto, em 2017. O país concedeu-lhe um visto de três meses, o prazo acabou, e o sírio continua no aeroporto.

O sírio diz que não quer regressar ao seu país porque é alvo de uma ordem de detenção por incumprimento do serviço militar. Quando o visto expirou, Kontar comprou um bilhete para o Equador, mas a Turkish Airlines não o deixou embarcar. 

Acabou por ter de pagar uma multa na Malásia por ter prolongado a sua estadia ilegalmente e foi incluído na lista negra de imigrantes do país asiático, o que faz com que não possa continuar no país. Hassan voltou a tentar sair de Kuala Lumpur, mas a saída foi-lhe novamente barrada.

Com um bilhete comprado, o sírio conseguiu embarcar para o Cambodja, mas foi obrigado a regressar à Malásia. Em declarações ao Phonm Penh Post, o ministério de Imigração do Cambodja diz que os vistos para os cidadãos sírios podem ser recusados se não cumprirem "os requisitos governamentais". 

“Sou sírio. Tenho documentação e um passaporte que diz isso, mas todos os governos do mundo estão a julgar-me por isso. E a culpa não é minha", afirmou Hassan no Twitter, questionando ainda: "Que significa ser sírio? Significa estar sozinho, ser débil, recusado, detestado".

"O Terminal"

Esta podia ser a história de "Viktor Navorski", a personagem de Tom Hanks no filme "O Terminal", mas é a realidade vivida relatada por Kontar através do Twitter. Impedido de viver na Malásia, o sírio está "parado" desde 7 de março no aeroporto internacional 2 de Kuala Lumpur onde come, dorme e faz a sua higiene pessoal.

Em maio, foi lançada uma petição para que Hassan seja acolhido no Canadá que, atualmente, já reúne mais de 13 mil assinaturas.

"Esta petição pede ao ministro da Imigração do Canadá, Ahmed Hussen, que permita que Hassan al Kontar viaje para o Canadá como refugiado. (...) Hassan já passou cerca de três meses no aeroporto de Kuala Lumpur. A sua saúde física e mental está-se a deteriorar", pode ler-se. 

Apesar da séria situação, Hassan mostra que consegue brincar com a situação de forma a tentar alertar para o grave problema que está a viver.

"Entrei em contacto com o Guiness para saber qual foi o tempo máximo que uma pessoa esteve preso num aeroporto. Sinto - prognóstico - que vou ganhar o recorde", diz ironicamente no Twitter.