Nas horas finais da campanha mais inesperada das últimas décadas na América, surgiu a… ‘november surprise’. 

Afinal, Hillary ficou com a certeza, ainda antes das eleições, de que não iria ser acusada no caso dos emails.

A novidade é boa para a democrata, mas levanta questão de fundo: se nada se alterou na convicção do FBI, porque se sentiu James Comey na necessidade de informar o Congresso com carta que se tornaria pública de um ponto de situação parcial e inconclusivo, há uma semana?

A verdade é que essa primeira diligência foi decisiva para dar um último impulso à campanha Trump, que estava na altura a 6 ou 7 pontos com apenas 11 dias para tentar reverter. 

O esclarecimento deste domingo foi fundamental para diminuir o manto de suspeita em relação ao que iria acontecer, mas… não será que o mal está feito.

Nos dias que mediaram as duas cartas, cerca de 20 milhões de americanos exerceram o seu direito de voto, optando pelo “early vote”. E fizeram-no achando que Hillary poderia vir a ser acusada por algo que, sabe-se agora, não merecerá essa acusação. 

O FBI concluiu que os novos elementos são, na maior parte dos casos, duplicados de emails já verificados e informações de terceiros, que não atingiam diretamente a candidata.

Donald Trump, que há dias tinha elogiado o FBI, já veio dizer que, tal como o sistema como um tudo, o organismo liderado por James Comey também é “rigged”, é uma fraude. 

À entrada do último dia de campanha, Hillary Clinton mantém uma vantagem curta, mas sólida, nas sondagens nacionais, que vai de 1 a 5 pontos de diferença.

Parece pequena, mas não deixa ser uma vantagem significativa: há quatro anos, no último dia da campanha, Obama e Romney estavam a 47%.

Nos estados decisivos, continua a haver sinais contraditórios: Hillary muito forte nos territórios com forte presença hispânica (bem lançada no Nevada e Florida no ‘early vote’, embora as projeções totais para esses dois estados mantenham tudo muito empatado), Trump a aproximar-se em dois estados importantes da “firewall” de Clinton – Pensilvânia e Michigan.  

Terá a nova carta do FBI um efeito de última hora a favor de Hillary? É possível que sim, mas já não há tempo para verificar isso em sondagens.

A reta da meta está a aproximar-se.

Hillary tenta segurar o Michigan, Donald desmultiplica-se em visitas a estados, sem que pareça haver uma estratégia clara sobre quais são os prioritários.

Com o tempo a fugir-lhe das mãos, Trump reforça retórica populista e apela: “Resta que seja o povo a fazer justiça”.

No último anúncio produzido em vídeo, a campanha Trump coloca o candidato a agravar o discurso anti-establishment, anti-finanças, anti-elites.

Parece curto para quem tem pouco mais que 24 horas para virar a agulha que aponta, neste momento, para uma eleição de Hillary. 

No campo de Clinton, o foco está na matemática. Nevada, Carolina do Norte e Florida são as prioridades. E agora também o Michigan, mas apenas numa perspetiva de gestão de vantagem.

Como bem recordou, em comício, o Presidente Obama: "Se ganharmos a Florida, isto está feito".

Germano Almeida