Fátima tinha 7 anos e esperava à porta da escola que a mãe chegasse para a levar para casa. Mas desapareceu antes de algum familiar chegar a tempo de a ir buscar. Quatro dias depois, a 15 de fevereiro, o corpo da menina foi encontrado a sul da Cidade do México, esquartejado dentro de sacos de plástico, com sinais de agressões e abuso sexual.

É revoltante, aberrante, doloroso, que alguém seja capaz de magoar uma menina", escreveu a autarca da capital mexicana, Claudia Sheinbaum, no Twitter. "Este crime não vai ficar impune", garantiu.

 

Fátima foi assassinada cerca de uma semana depois do homicídio de Ingrid Escamilla, de 25 anos, que morreu violentamente às mãos do companheiro. Os casos levaram a uma mobilização da sociedade mexicana contra o homicídio de mulheres e crianças do sexo feminino que partiu das ruas para as redes sociais, com a hashtag #JusticiaParaFátima. Nos últimos dias, grupos de ativistas protestaram em várias cidades pelo número de mulheres que continua a morrer no México vítima da violência e de abusadores sexuais. 

 

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, também falou do caso, atribuindo-o aos problemas sociais e familiares e classificando-o como uma "doença social".  

É um efeito do modelo neoliberal porque os crimes não se resolvem só com polícias e prisões e mão firme, temos de sensibilizar", sublinhou Obrador. 

Suspeitos eram conhecidos da família de Fátima

Já esta quinta-feira, soube-se que foram detidos, nos arredores da Cidade do México, os presumíveis autores do homicídio de Fátima. São um casal, identificados como Mario Alberto e Giovana. Terá sido ela a levar Fátima da escola: coincide com a mulher que, nas imagens captadas por câmaras de vigilância, leva a criança pela mão até um automóvel. O rasto das duas perde-se aí, quando entram no carro e o condutor arranca para parte incerta.

As identidades dos suspeitos foram divulgadas na manhã de quarta-feira pelas autoridades. Fátima foi sem vacilar com Giovanna porque ela e o marido terão vivido numa propriedade da família da criança, que lhes arrendava um quarto. 

A mãe de Fátima terá conhecido a suspeita numa festa, através de um amigo em comum, o que facilitou a aproximação das famílias. 

Os pais de Fátima reportaram no dia seguinte o desaparecimento da criança, mas a polícia só iniciou buscas dois dias mais tarde, decisão que está a ser investigada por eventual negligência das autoridades.

Os restos mortais da menina foram encontrados no sábado passado na sona de Tulyehualco, a sudeste da Cidade do México, tendo a polícia chegado aos suspeitos por descobrir na mesma zona uma casa onde encontrou roupa da mulher que tinha levado Fátima, vestuário da menina e sinais de comportamentos violentos. O casal ainda tentou fugir, mas acabou detido horas mais tarde.

Ambos os suspeitos enfrentam uma pena de prisão que vai de 80 a 140 anos, revelou um porta-voz da Procuradoria-Geral da Cidade do México, citado pelo El Mundo

O caso da morte de Fátima está a ser investigado como um feminicídio, considerado um crime de ódio contra mulheres e que, de acordo com números oficiais citados pela imprensa, fez 1.006 vítimas no México só em 2019. O número poderá ser superior, pois alguns peritos apontam deficiências no registo deste tipo de crime no país.

Só nas últimas horas, assinala o El Mundo, morreram no México - que se emocionou com a morte de Fátima - mais três menores do sexo feminino, vítimas de violência: uma bebé, uma adolescente de 14 anos e uma jovem de 17. 

Bárbara Cruz