O magnata do jogo de Macau Stanley Ho morreu esta terça-feira aos 98 anos, em Hong Kong, noticiou a imprensa local.

Ho morreu no Hong Kong Sanatorium Hospital, de acordo com a televisão estatal chinesa, que o descreveu como "um empreendedor patriótico".

A família confirmou a morte, declarando que, apesar de saberem que este dia viria, tal "não diminui o [seu] sofrimento".

A saúde do empresário começou a deteriorar-se há quase uma década, após ter sofrido um traumatismo em resultado de uma queda em casa, em 2009.

O incidente pôs um fim efetivo à carreira de empresário, apesar de só muito mais tarde ter vindo a abdicar da presidência das 'holdings' dos seus casinos, em junho de 2018, com 96 anos, em favor da filha Daisy Ho, passando a ser presidente emérito.

Figura incontornável no antigo território administrado por Portugal, e um dos homens mais ricos da Ásia há décadas, a fortuna pessoal de Ho foi estimada em 6,4 mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros), quando se reformou em 2018, apenas alguns meses antes do 97.º aniversário, referiu o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, cidade onde vivia.

Exemplo acabado de um ‘self-made man’, Stanley Ho fica para a história como o magnata dos casinos de Macau, terra que abraçou como sua e cujo desenvolvimento surge indissociavelmente ligado ao seu império do jogo.

Nascido a 25 de novembro de 1921 em Hong Kong, Stanley Ho fugiu à ocupação japonesa para se radicar na então portuguesa Macau, onde fez fortuna ao lado da mulher macaense, oriunda de uma das mais influentes famílias da altura.

Na década de 1960, conquista com a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), o monopólio de exploração do jogo, que manteve por mais 40 anos, até à liberalização, que trouxe a concorrência dos norte-americanos, ainda assim longe de lhe roubar a hegemonia.

Stanley Ho viria a deixar o seu ‘cunho’ na transformação do território – desde a dragagem dos canais de navegação – uma das imposições do próprio contrato de concessão de jogos – à construção do Centro Cultural de Macau, do Aeroporto Internacional ou à constituição da companhia aérea Air Macau.

Família fala em morte de "figura maior que a vida"

A família do magnata do jogo de Macau Stanley Ho manifestou hoje pesar pela morte, aos 98 anos, de “uma figura maior que a vida”.

Em nome das quatro mulheres que partilharam a vida com Ho, Clementina Leitão Ho (já falecida), Lucina Laam King Ying, Ina Chan Un Chan e Angela Leong On Kei, bem como de todos os seus filhos e netos, a família fala numa “profunda tristeza” pelo falecimento do “amado patriarca”, numa nota enviada à agência Lusa.

Cercado por todos os membros da sua família, Dr. Ho faleceu pacificamente” em Hong Kong, “uma figura maior do que a vida, cuja visão sem paralelo, espírito empreendedor, desenvolto e temerário foram amplamente reconhecidos e respeitados”, salientou o mesmo texto.

“Para nós, ele foi e sempre será o nosso modelo inspirador. Passou-nos valores importantes. Ensinou-nos a ver possibilidades em territórios novos e desconhecidos, a abraçar desafios com tenacidade e resiliência, a ser compassivo e empático, a retribuir à sociedade, a apreciar nossa herança cultural e, acima de tudo, a sermos patrióticos no nosso país”, sublinhou a família.

Entre as “muitas vitórias que conquistou nos 98 anos de vida, o carisma do Dr. Ho, o seu sentido de humor e o amor pela dança estarão entre as muitas qualidades pelas quais os seus pares se lembrarão dele com carinho”, referiu.

Mas para nós, sua família, o seu legado será o amor incondicional que demonstrou. Embora soubéssemos que esse dia chegaria, nenhuma palavra poderia expressar adequadamente a consciência da nossa perda. A sua falta será sentida por todos os membros da família e por todas as vidas que ele tocou”, acrescentou.

"O homem que ajudou a mudar Macau"

O presidente da Associação de Advogados de Macau disse à Lusa que o amigo e magnata do jogo Stanley Ho, que morreu esta terça-feira, era “mais do que os casinos, o homem que ajudou a mudar” o território.

É uma notícia muito triste para mim e para todos os amigos que deixa, para a sua família, porque estamos a falar de um homem superior, um homem inteligente, culto, que fez muito por Macau desde os anos 60, responsável por muita da transformação, e que se soube adaptar ao longo da sua longa vida”, afirmou Jorge Neto Valente.

“A verdade é que foi muito mais do que o homem dos casinos: político, financeiro, comercial, pioneiro em muitas vertentes, sobretudo em Macau, de onde foi muitas vezes ponte entre a administração portuguesa e a China”, acrescentou.

Neto Valente conheceu Stanley Ho há mais de 40 anos. “Eu era muito jovem, ele já mais maduro. Sempre me estimou. Sempre me tratou bem, era de resto uma pessoa de uma memória prodigiosa, que se recordava das relações com as pessoas, e cruzámo-nos muitas vezes em fundações e sociedades, para além de ter sido seu advogado, de ter tratado de algumas coisas a nível pessoal”, recordou.

Agora, concluiu, “o pensamento das pessoas que o estimavam vai para a família e para os amigos que deixou”.

/ SS