A polícia indiana prendeu 30 pessoas por terem espancado três homens depois de lerem mensagens com rumores de que o trio sequestrava crianças, através da aplicação WhatsApp. Nos últimos tempos têm acontecido várias mortes, na Índia, causadas por mensagens falsas que se tornam virais através da aplicação de mensagens Messenger e WhatsApp, informa a CNN.

O último caso foi o de Mohammed Azam e dois amigos que foram atacados, em Bidar, no estado de Karnataka, na sexta-feira. Os amigos ficaram gravemente feridos, mas estão em condições estáveis no hospital.

Os homens circulavam de carro na zona, quando pararam à beira da estrada para dar chocolates a alunas. Uma das crianças gritou, o que fez chamar a atenção dos residentes que já estavam alertados para a existência de gangues que raptavam crianças, através das redes sociais.  

A razão de estarem a dar chocolates às alunas, não sabemos. Se eles tiveram ou não uma má intenção, ainda não sabemos. Ainda estamos a investigar", revela H. R. Mahadev, vice-comissário do distrito de Bidar.

Os homens fugiram, mas foram atacados, poucos quilómetros à frente, por uma multidão, constituída por cerca de duas mil pessoas, que receberam mensagens acerca do grupo, na aplicação WhatsApp. O veículo em que estavam derrapou para fora da estrada, foram retirados do carro e espancados.

30 pessoas foram presas por causa do caso, 28 por estarem envolvidas na violência e duas por espalharem falsos rumores, incluindo a administração de um grupo de WhatsApp local.

Parameshwara, vice-ministro-chefe de Karnataka, afirma que condenou o "linchamento da multidão" e instou a polícia a "agir rapidamente contra os agressores".

Peço às pessoas que não prestem atenção aos rumores e sigam a lei. Denunciem à polícia atividades suspeitas", acrescentou.

 

Problema nacional

Na semana passada, o WhatsApp publicou anúncios de página inteira nos jornais principais, em inglês e hindi, dando aos leitores 10 dicas para identificar mensagens que podem ser falsas. A empresa informou que traduziria os anúncios para jornais locais em nove estados da Índia, muitos dos quais falam idiomas diferentes.

Notícias falsas muitas vezes tornam-se virais. Só porque uma mensagem é partilhada muitas vezes, isso não faz dela verdadeira", diz um dos anúncios.

A campanha anti notícias falsas do WhatsApp surgiu na sequência de uma multidão em Maharashtra ter agredido cinco pessoas no dia 1 de julho, depois das mensagens divulgadas na aplicação alegarem que o grupo sequestrava crianças. As mensagens do WhatsApp, que alertavam os residentes de possíveis sequestradores, estavam a circular na zona há uns 10 ou 15 dias. Os homens, trabalhadores agrícolas pobres de um distrito próximo, foram atacados por um grupo com cerca de 40 pessoas depois de terem chegado de autocarro. Estavam cercados por uma multidão de quase três mil pessoas.

Num comunicado após o ataque de 1 de julho, o Ministério da Tecnologia da Índia informou que "o abuso de uma plataforma como o WhatsApp para a circulação de conteúdo tão provocante é uma questão de profunda preocupação".

A 8 de junho, dois homens que viajavam numa carrinha foram abordados e espancados até à morte por uma multidão no estado de Assam, no nordeste da Índia. Circulavam rumores no Facebook e no WhatsApp de que mantinham uma criança sequestrada na carrinha.

Em maio, uma mulher transgénero foi morta e três outras ficaram gravemente feridas na cidade de Hyderabad, quando foram atacadas por uma multidão de residentes que agiram depois de receberem mensagens com boatos de que as mulheres seriam traficantes de crianças. As mensagens, que se tornaram virais na região, afirmavam que as mulheres transgénero estavam por detrás de um plano para sequestrar crianças pequenas.

Um dia antes do ataque anteriormente relatado, um homem com problemas de saúde mental foi espancado em Pahadishareef, também em Hyderabad, devido a rumores no WhatsApp de que era membro de um gangue de sequestros.

A administração do WhatsApp comunica que ficou "horrorizada com os terríveis atos de violência" e anuncia planos para manter os utilizadores seguros e para evitar o uso indevido do serviço.

 

Sequestro de crianças

Enquanto está gerado o pânico nas redes sociais relativamente à morte de pessoas inocentes, o medo do sequestro de crianças não é infundado.

De acordo com o Ministério da Administração Interna da Índia, houve um aumento de 30% nos casos de sequestro de crianças entre 2015 e 2016, com o número total de casos aumentando de pouco mais de 42 mil para quase 55 mil.

No último relatório do Tráfico de Pessoas do Departamento de Estado dos EUA, os autores advertiram que na Índia "a proteção às vítimas continuava inadequada e inconsistente".

Os especialistas estimam que milhões de mulheres e crianças são vítimas de tráfico sexual na Índia", segundo os dados do relatório, acrescentando que as crianças são sequestradas e forçadas a trabalhar.

O documento tece elogios a algumas medidas implementadas pelo governo indiano para resolver o problema, incluindo o estabelecimento de centros de atendimento, nas 33 principais estações de comboio de modo a "fornecer apoio imediato às crianças desacompanhadas, que podem estar desaparecidas, abandonadas ou em fuga e que podem ser vulneráveis à exploração".