Sondagem feita, há dias, pela Langer Research Associates para o Washington Post e para a ABC confirma a perceção que todos os que seguem com a mínima atenção a política americana já tinham: Hillary Clinton é uma candidata imbatível para suceder a Barack Obama, em 2016.

Numa América politicamente dividida entre democratas e republicanos, tudo o que sejam valores acima dos 52/53 por cento são muito bons.

Ora, a ainda chefe da diplomacia americana obteve 57 por cento das preferências dos eleitores, de acordo com esse estudo.

Estes dados poderiam quase obrigar Hillary a preparar uma candidatura presidencial que, a acreditar nestes números, prometem ser um passeio de quatro anos até à consagração em novembro de 2016, com a porta da Casa Branca já entreaberta.

Mas pode não ser bem assim. Por um lado, ainda não é claro que a esposa do 42.º Presidente dos EUA tenha vontade de embarcar numa segunda candidatura presidencial, depois da tremenda desilusão que apanhou nas primárias de 2008.

É preciso lembrar que uma corrida presidencial nos EUA é uma autêntica loucura. São dois anos a reunir apoios, somar viagens, dar milhares de apertos de mão e beijinhos, angariar dinheiro. Dorme-se pouco. É cansativo. É preciso ter um motivo muito forte para se avançar com tão longa, cara e arriscada empreitada.

Em 2008, Hillary passou de superfavorita a candidata-apanhada-de-surpresa-com-a-Obamania. A questão resolveu-se de forma magistral entre os dois (a paz entre Obama e os Clinton é um dos segredos mais bem guardados da alta política americana).

Hillary aceitou o cargo prestigiado de Secretária de Estado. Mas a verdade é que o Departamento de Estado é uma realidade à parte numa administração americana. Está-se fora do combate político interno e a própria estrutura física do State Department é externa à Casa Branca.

Os números da sondagem ABC/WP provam duas coisas: que Hillary foi uma chefe de diplomacia bem-sucedida e com competência reconhecida pela opinião pública. E mostram, também, que a mulher que foi Primeira Dama dos EUA entre 1993 e 2001 será, por estes dias, o político mais popular na América (bem mais do que Barack Obama, que foi reeleito, sim, mas com 51 e não com 57 por cento...)

Se Hillary decidir avançar (algo que só saberemos dentro de ano e meio/dois anos), pelo menos as primárias democratas ficam arrumadas -- a eleição geral será outra conversa, porque depois de oito anos de presidência democrata, o nomeado republicano, seja ele quem for, terá sempre boas hipóteses de disputar a vitória.

Só que um cenário (não tão improvável quanto isso) de não candidatura de Hillary abre um enorme problema ao Partido Democrata.

Um olhar pelos ativos dos democratas, por estes dias, faz-nos perceber que os dois sucessos eleitorais de Barack Obama tiveram um certo efeito de¿ eucalipto no partido do burro.

Entusiasmados com as novas possibilidades eleitorais oferecidas pelo fenómeno Obama, os democratas não mostraram grande capacidade de renovação ao nível das lideranças.

Hillary é, obviamente, um caso diferente, porque tem um percurso próprio e muito anterior ao de Obama.

Mas à parte o supertandem Barack/Hillary, o que tem o Partido Democrata?

Uma promessa para futuros ciclos eleitorais, apelativa ao eleitorado latino, mas ainda com tudo a provar num plano nacional (Julián Castro, mayor de San Antonio, Texas, de 37 anos); uma velha raposa do Senado e número dois de Obama, já com 73 anos em 2016 (Joe Biden); um governador bem parecido e de visão pragmática, mas muito Costa Leste (Martin O¿Malley, do Maryland).

Parece pouco, para a concorrência que pode estar a preparar-se do lado republicano.

* Germano Almeida é jornalista, autor do livro «Histórias da Casa Branca» e do blogue Casa Branca
Germano Almeida