Na guerra de argumentos da política americana, a direita garante que o mainstream media favorece Barack Obama e a esquerda acredita que Mitt Romney se apresenta como um candidato artificial (que fará, se for eleito, o contrário do que esta a dizer na campanha).



Como perceber onde está a razão? Um bom ponto de partida será lembrar-nos da forma como Barack Obama foi tratado em 2008. O então candidato democrata foi capaz de criar uma onda de entusiasmo tão intensa que surgia com uma aura mobilizadora e, nalguns aspetos, mesmo salvifica.



Quatro anos depois, o mesmo homem é retratado de modo completamente diferente. Obama surge como um Presidente que não fez o trabalho todo e como um candidato em sérios problemas de conseguir a reeleição.



As mesmas empresas de comunicação social, os mesmos analistas, traçaram um perfil muito diferente do mesmo politico, em duas campanhas presidenciais. A questão não estará, por isso, num suposto favorecimento à partida, mas no contexto. A política americana é um bom exemplo da frase de Ortega y Gasset, que nos avisa que «o homem é o que são as suas circunstâncias».



Um estudo publicado esta semana no Boston Globe explica que o «bias» (desvio) determinante em 2008 foi a dinâmica de vitória que Obama conseguiu imprimir desde cedo sobre John McCain. O tom positivo em torno da cobertura mediática de Obama há quatro anos decorreu da própria tendência de triunfo do candidato.



O mesmo estudo mostra que a corrida de 2012 tem dados completamente diferentes. Numa primeira fase, Romney foi apresentado pela imprensa como um candidato «pouco convincente», «demasiado rico», «muito artificial», «descolado da realidade».



Subitamente, a imagem de Romney mudou. O que se passou de extraordinário? Uma vitória. Uma rotunda e inesperada vitória no primeiro debate presidencial, em Denver, Colorado, a 3 de outubro. A partir dai, como que por golpe mágico, as «fragilidades» e «contradições» do nomeado republicano passaram para um plano escondido. A vitória era o combustivel que o nomeado republicano precisava - e ela apareceu.



A abordagem moderada que Mitt Romney escolheu fazer na reta final da campanha ajudou a consolidar a nova narrativa criada em torno do nomeado republicano. A campanha de Romney multiplicou, nos últimos dias, anúncios que destacavam frases do candidato, nos debates com Obama, em que Mitt sublinhava a necessidade de «trabalhar com democratas e republicanos», chamando a si os créditos da governação bipartidária que fez no Massachussets.



Nas primárias, os republicanos perguntavam se Mitt Romney seria «suficientemente conservador». Na reta final da eleição, os independentes e democratas desiludidos com Obama questionam se Romney será «suficientemente moderado».



As voltas que uma corrida presidencial norte-americana dá.

Faltam 4 DIAS para as eleições presidenciais nos EUA.

* Germano Almeida é jornalista, autor do livro «Histórias da Casa Branca» e do blogue Casa Branca. Está em Washington ao abrigo da bolsa da Fundação Luso-Americana sobre as eleições presidenciais americanas
Redação / Germano Almeida, em Washington D.C.*