A distância de quarenta anos passados não apaga a memória fértil de acontecimentos vividos naqueles tempos loucos de contestação em Paris. João Freire, sociólogo e Professor Catedrático de Sociologia, contou ao PortugalDiário a sua visão dos acontecimentos que assistiu de perto em Maio de 68. Era, na altura, um jovem oficial da Marinha que tinha desertado por não concordar com a guerra em África.

«Foi um tempo excepcional, que tive a sorte de seguir e acompanhar. Foi algo que mexeu com a vivência de milhares de pessoas, nomeadamente os jovens urbanos e mais esclarecidos culturalmente», recorda, passando a contar a sua história particular: «Tinha acabado de chegar a Paris. Foi em Abril que assumi uma ruptura muito forte na minha vida, pois era oficial da Marinha, tinha estado em África, e decidi desertar, assumindo todas as consequências».

João Freire sabia que esta posição era rara naquela época, mas nem sequer ousou olhar para trás. «Inscrevi-me de imediato na Alliance Française para aperfeiçoar o francês e posteriormente candidatar-me à universidade. Em Maio, era recepcionista de hotel à noite, o que acontecia a muitos jovens naquela altura, pois era uma boa forma de conseguir algum dinheiro», conta.

O ambiente aquece

«A partir de 3 de Maio, o poder foi surpreendido pelos acontecimentos. Eram milhares de pessoas nas ruas, muito bem organizados e eu seguia atentamente tudo isso, participando em algumas manifestações. Com a ocupação da Sorbonne, cheguei a participar em dois comités de acção, que eram assembleias sempre muito abertas», recorda o sociólogo.

Quanto ao envolvimento de outros portugueses, aponta o nomes de Maria Lamas, Jorge Reis, António José Saraiva ou Francisco Ramos da Costa, que foi um dos fundadores do Partido Socialista e até vivia na Dinamarca, mas naquela altura não quis perder aqueles momentos marcantes.

«Eu não fazia parte daquele núcleo de intelectuais, alguns deles mais velhos e que tinham alguma ligação à universidade. Fui um caso excepcional, porque era raro haver desertores oficiais com quota permanente. Essas pessoas ajudaram-me muito, nomeadamente ao nível da integração na sociedade», avalia João Freire, que admite ter andado muitas vezes pelas ruas de Paris «mais preocupado em piscar o olho à rapariga do lado».

Impacto social

Uma coisa é certa, para o sociólogo João Freira, Maio de 68 não teve uma grande importância política, mas deixou marcas a nível social.

«Como movimento político, a França conheceu alguns episódios com muito mais consequências do que o que sucedeu naquele mês. As pessoas esquecem-se do Maio de 58, que teve um impacto bem mais marcante, nomeadamente ao nível do sistema presidencial, que foi instaurado por De Gaulle e estende-se até aos dias de hoje», reforça

Na sua perspectiva, ainda assim, subsistem registos importantes que emanam daquele tempo, como «o aspecto subversivo de vários slogans, em que o carácter mais expressivo é a liberdade sem limites e sem barreiras nos comportamento». Não é por acaso que a frase «É proibido proibir» surge como paradigma do Maio de 68.

Passados quarenta anos depois, João Freire recorda uma certa ingenuidade de alguns jovens, que aderiam a certas ideologias políticas, como ao maoismo. «Havia muita espontaneidade, mas também ingenuidade», recorda, considerando que aqueles momentos de viragem viriam a ser «novamente vividos em Portugal de 74 a 76».