Estavam na sala do hotel Rigopiano, junto à lareira, bebendo chá. Esperavam a chegada dos limpa-neves para poderem, finalmente, voltar a casa. Tinham sido horas difíceis, com vários sismos a abalar a região e um forte nevão que os impedia de sair dali. De repente, foram atirados ao chão. Pensaram que era um novo terramoto, mais forte, mas era a avalanche que tinha soterrado o hotel.

Vincenzo Forti e a namorada Giorgia Galassi eram dois dos hóspedes que estavam na sala. No hotel estavam mais de 30 pessoas alojadas, incluindo quatro crianças e os funcionários. Todos, ou quase todos, ficaram presos no interior.

Domingo à noite, as equipas de resgate e salvamento que se encontram em Farindola, Itália, avistaram mais um corpo, fazendo aumentar para seis o número de vítimas mortais confirmadas, escreve a Associated Press (AP). Ainda há mais de 20 pessoas desaparecidas e as hipóteses de sobrevivência dependem se estas tiveram, ou não, a sorte de ficar numa bolha de ar. A cada dia que passa, a esperança diminui.

Onze pessoas sobreviveram, entre elas estão as quatro crianças que estavam no hotel. Ainda estão todos hospitalizados, mas com a visita de amigos e familiares começam a surgir, na imprensa, pormenores sobre as histórias de quem escapou à tragédia. O isolamento e o silêncio, já que neve absorve qualquer som do exterior.

“Estávamos quatro na sala, ao pé da lareira, a beber chá” conta Giorgia Galassi, um estudante universitária de 22 anos, numa entrevista telefónica à rádio Giulianova, da sua terra natal. “De repente caiu tudo em cima de nós e eu não conseguia perceber nada”. Ela e o namorado vivem na cidade costeira de Giulianova, onde este, Vincenzo Forti (25 anos) tem uma pizzaria.

“Estávamos convencidos de que viria alguém. Era impossível não saberem que estávamos ali. Batemos e gritámos até não podermos mais. Parecia que estávamos dentro de uma lata de tinta". Sem comida, Giorgia Galassi recorda que ela o namorado comeram “gelo e, por isso, tiveram sorte”.

Luigi Valiante, amigo de Vincenzo Forti, já esteve no hospital e contou aos jornalistas que ele “sabe que ter sobrevivido é um milagre”. “Estavam num espaço de um metro por um metro, no frio, sem luzes e com um sofá partido e uma viga no meio dos dois”, acrescenta Luigi Valiante.

Enquanto os telefones tiveram bateria, eles tiveram alguma luz. Depois, foi a escuridão total.

Outra sobrevivente que estava perto do casal é Francesca Bronzi. A jovem ainda não parou de perguntar pelo namorado que se encontra desaparecido. Segundo os pais da jovem, ela salvou-se devido a uma cadeira alta que impediu que fosse esmagada por uma viga.

Perto estava também Giampaolo Matrone, oriundo de Roma, com a mulher. Ficou com o braço esmagado e ainda não sabe onde está a esposa, que estava ao seu lado quando tudo aconteceu.

Giorgia Galassi confessa que teve momentos em que achou que ia perder a esperança, presa naquela escuridão claustrofóbica. O namorado não deixou. “Tentou dar sempre força a todos”, recorda a jovem.

Ouviram os primeiros sons cerca de 40 horas depois da avalanche. Era sexta-feira por volta das onze da manhã. Giorgia Galassi foi retirada já no sábado. Depois do salvamento de um mãe, o filho e mais três crianças.

“Não foi sorte. Foi um milagre”, disse ao entrevistador da rádio.

Em declarações à Associated Press, Isa Toccotelli, a mãe da jovem diz que esta teve sempre um rosário na mão enquanto esteve soterrada na neve. “Foi um milagre. Os milagres acontecem. Eles viveram um”, afirmou.

Patrícia Pires