O analista Vasconcelos Romão considera que a remodelação ministerial operada pelo Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, foi uma “reforma reativa” face ao fracasso do combate à pandemia de covid-19 e perante a pressão dos militares.

Em declarações à Lusa, Filipe Vasconcelos Romão, professor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e especialista em questões internacionais, considera que Bolsonaro está “a correr atrás do prejuízo”, com fugas para a frente, sem uma lógica de estratégia entendível e sem um rumo que não seja o de procurar sobreviver politicamente à pandemia e às ameaças de uma candidatura de Lula da Silva.

As Forças Armadas brasileiras viram o seu prestígio ficar em causa, com a sua responsabilidade nos resultados caóticos do combate à pandemia, e procuraram demarcar-se do Presidente”, disse à Lusa Filipe Vasconcelos Romão, referindo-se à demissão de Eduardo Pazuello, um general do exército, que foi ministro da Saúde de Bolsonaro até à passada semana.

Pazuello foi o primeiro dos rostos da profunda remodelação ministerial que na segunda-feira levou ao afastamento dos titulares das pastas das Relações Exteriores, Justiça, Defesa, Casa Civil, Secretaria do Governo e da Advocacia-Geral da União.

Para Filipe Vasconcelos Romão, as altas chefias militares brasileiras ficaram preocupadas com a imagem deixada na sua instituição pelo envolvimento de um seu general no “caos da estratégia de combate à pandemia”, preferindo demarcar-se rapidamente das responsabilidades políticas de Jair Bolsonaro na crise sanitária.

Este afastamento explica o pedido de demissão do ministro da Defesa, general Azevedo e Silva, bem como dos chefes dos três ramos das Forças Armadas brasileiras, no momento em que Bolsonaro deixou de ter qualquer controlo sobre a situação pandémica e perdeu o pulso à situação política, explicou o especialista em questões internacionais.

O topo da hierarquia militar no Brasil não é facilmente manipulável. Os generais não têm lealdade ao Presidente. Têm lealdade à sua hierarquia e às leis”, disse à Lusa Vasconcelos Romão.

Para este analista, Bolsonaro ainda terá controlo sobre algumas chefias policiais em alguns estados, mas claramente já não controla os militares, que agora fazem um compasso de espera para perceber se, nas próximas eleições nacionais, haverá uma 'terceira via' entre o atual Presidente e uma eventual candidatura do ex-Presidente Lula da Silva.

O medo de Bolsonaro é que os militares comecem a acreditar que Lula pode ser o mal menor”, admite Vasconcelos Romão, que concede que as altas patentes olhem para o putativo candidato do Partido dos Trabalhadores com desconfiança, mas ainda assim como uma alternativa vantajosa perante o cenário de um segundo mandato do atual Presidente.

O analista considera, contudo, que esta remodelação tem várias faces e diferentes motivações e explicações, tendo um profundo impacto na estratégia de poder de Jair Bolsonaro, que se procura agora posicionar com posições mais moderadas, numa tentativa de agradar ao eleitorado de centro.

Um exemplo dessa estratégia de moderação foi a renúncia ao cargo do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, uma das figuras mais polémicas e radicais do Governo de Bolsonaro, cujo afastamento permite agora ao Presidente um recentramento das políticas externas.

Tradicionalmente, os presidentes escolhem para esta pasta alguém mais moderado do que eles próprios. É assim com vários líderes na América Latina, foi assim com Lula da Silva. Mas não era assim com Bolsonaro, que foi buscar para o Itamaraty (palácio sede do Ministério das Relações Exteriores) um radical”, explicou Vasconcelos Romão.

A justificação para o afastamento do chefe da diplomacia brasileira, lembrou Vasconcelos Romão, passa também pela forma como Ernesto Araújo, que era “um aríete das teorias da conspiração contra a China”, tinha afrontado Kátia Abreu, a influente senadora do Partido Progressista (PP) que exerceu enorme pressão sobre o Ministério das Relações Exteriores e chamou ao titular da pasta “dissimulado”.

/ NM