O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, questionou na quinta-feira as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) face à pandemia do novo coronavírus, pelo facto do seu diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, "não ser médico".

Eu estou a responder num processo dentro e fora do Brasil, sendo acusado de genocídio por ter defendido uma tese diferente da OMS. O pessoal fala tanto da OMS, o diretor da OMS é médico? Não é médico. É como se o presidente da Caixa [instituição financeira brasileira] não fosse alguém da economia. Não tem cabimento", afirmou Bolsonaro, numa transmissão de vídeo em direto na sua página na rede social Facebook.

Apesar de não ser médico, Tedros Adhanom Ghebreyesu, tem uma longa carreira na área da saúde, sendo formado em biologia. Antes de ser eleito diretor-geral da OMS em 2017, Tedros, que se tornou no primeiro presidente da instituição nascido no continente africano, trabalhou na Etiópia como ministro da Saúde (2005 a 2012) e como ministro de Relações Exteriores (2012 a 2016).

Além disso, foi presidente do Conselho do Fundo Global de Combate à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), Tuberculose e Malária; presidente da Parceria Fazer Recuar a Malária e copresidente do Conselho da Parceria Global para a Saúde Materna, Neonatal e Infantil, segundo o site da OMS.

Tedros Adhanom Ghebreyesus tem um doutoramento em Saúde Comunitária pela Universidade de Nottingham e um mestrado em Imunologia de Doenças Infecciosas pela Universidade de Londres, ambas no Reino Unido.

O diretor-geral da OMS é reconhecido mundialmente como investigador e diplomata em saúde, com experiência em primeira mão em respostas de emergência a epidemias.

No início do mês, Jair Bolsonaro chegou a citar um discurso de Tedros Adhanom Ghebreyesu sobre a necessidade de sustento financeiro de determinadas populações durante a pandemia.

Contudo, na quinta-feira, o chefe de estado do Brasil colocou em causa as diretrizes da OMS, as quais tem sido acusado de não seguir, principalmente em relação ao isolamento social.

Eu não tenho números, mas entre o Brasil e um país pobre de um outro continente, africano por exemplo, a expetativa de vida é maior aqui ou no Zimbabué? É maior aqui. Porque temos mais rendimentos per capita aqui. Então, se os nossos rendimentos caírem, a morte chegará mais cedo. É isso que eu sempre procurei levar ao conhecimento público. Não podia fugir da verdade", defendeu o presidente da república.

Desde o registo dos primeiros casos da doença Covid-19 no país, em fevereiro último, Jair Bolsonaro mostrou-se crítico das medidas de isolamento social recomendadas pela OMS e pelo seu próprio Ministério da Saúde para travar a disseminação do vírus.

Jair Bolsonaro insiste que as pessoas devem voltar ao trabalho e que a economia deve ser reativada porque "o Brasil não pode parar" por causa do que chegou a classificar como uma "gripezinha".

Eu, se fosse o presidente da Caixa, com todo o respeito, eu não ia fazer nada lá. (...) Então o presidente da OMS não é médico, e o pessoal diz que temos de seguir a OMS", acrescentou o mandatário.

Bolsonaro é alvo de denúncias por genocídio e crimes contra a humanidade, dentro e fora do Brasil. Num dos casos, por exemplo, parlamentares da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados do Brasil identificaram 22 pronunciamentos e atos de Bolsonaro sobre o novo coronavírus, apelidando-o de "gripezinha", minimizando os impactos da pandemia e atacando governadores e a imprensa.

O Brasil registou um novo recorde diário, com 407 mortos e 3.735 infetados de covid-19 nas últimas 24 horas, totalizando 3.313 óbitos e 49.492 casos de infeção, anunciou na quinta-feira o executivo de Bolsonaro.

A nível global, a pandemia de Covid-19 já provocou mais de 190 mil mortos e infetou mais de 2,6 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

/ AG