O biólogo James D. Watson, de 90 anos, prémio Nobel da Medicina em 1962, viu serem-lhe retirados os títulos honoríficos que ainda detinha no centro de investigação Cold Spring Harbour, nos Estados Unidos, após novas declarações, em que volta a defender que "entre brancos e negros existem diferenças nos resultados dos testes de inteligência. Eu diria que a diferença é genética".

As novas e polémicas declarações de James D. Watson foram feitas no documentário "Decoding Watson" (Descodificando Watson), exibido na passada semana pelo canal público norte-americano de televisão PBS.

Watson, que ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1962, com Maurice Wilkins e Francis Crick, pela descoberta em 1953 da estrutura de dupla hélice do ADN, volta a repetir considerações pelas quais foi censurado em 2007, ano em que, logo em janeiro, foi convidado para presidir ao Conselho Científico da Fundação Champalimaud pela presidente Leonor Beleza.

Então, Watson viria a pedir desculpas e a retratar-se. O centro de investigação Cold Spring Harbour em Long Island, Nova Iorque, ao qual presidira após 1994, optou por afastá-lo das seus cargos na instituição. Agora, decidiu mesmo retirar-lhe os títulos honoríficos que ainda detinha.

As declarações que ele fez no documentário são completamente e totalmente incompatíveis com a nossa missão, valores e políticas, e exigem o corte de quaisquer vestígios remanescentes do seu envolvimento. O Cold Spring Harbor Laboratory respeita e defende os direitos, dons intelectuais e potencial de todos os seres humanos. Com este compromisso de respeito e igualdade, o CSHL continuará a sua missão de avançar nas fronteiras da biologia através de programas de pesquisa e educação para o benefício da humanidade", refere o comunicado da instituição norte-americana.

 

"Sombrio sobre o futuro de África"

Em 2007, James D. Watson chocou a comunidade científica com uma entrevista ao jornal britânico The Sunday Times, na qual se dizia “pessimista” e "inerentemente sombrio sobre o futuro de África.

Watson dizia então que as políticas de cooperação para o desenvolvimento baseavam-se "no facto de que a sua inteligência [a dos negros] é a mesma que a nossa, enquanto todas as evidências dizem que não”.

Existe o desejo de que todos os seres humanos sejam iguais", dizia o cientista, mas “as pessoas que têm de lidar com empregados negros sabem que isso não é verdade”.

As considerações de Watson desencadearam indignação e levaram-no a pedir desculpas. Deixou a reitoria do Cold Spring Harbor e, em 2014, viu-se até obrigado a leiloar a medalha de ouro do Prémio Nobel da Medicina para compensar a perda de rendimentos. Valeu 4,1 milhões de euros, pagos pelo milionário russo Alisher Usmanov, dono de um império metalúrgico.

Fora da Fundação em 2012

James D. Watson foi convidado para presidir ao Conselho Científico da Fundação Champalimaud em janeiro de 2007, por Leonor Beleza, que foi aos Estados Unidos de propósito. Mas, foi meses mais tarde, em outubro, que as polémicas declarações raciais foram produzidas. 

O dr. Watson já não preside ao Conselho Científico da Fundação desde 2012. Atualmente, o presidente é o professor Anthony Movshon", referiu à TVI24 uma fonte autorizada da Fundação Champalimaud, esclarecendo que este neurocientista, que já integrava a estrutura na equipa de Watson, o substituiu há sete anos.

Sem ser conhecido se houve razões específicas que levaram à substituição de Watson no Conselho Científico da Fundação Champalimaud, registe-se que o biólogo esteve em Lisboa, numa conferência aquando da inauguração das instalações do Centro de Investigação, em outubro de 2010. Defendeu então que dentro de uma década seria possível curar o cancro, desde que houvesse testes mais arriscados por parte da comunidade científica.

James D. Watson, segundo o jornal The New York Times, que cita fontes familiares está hospitalizado desde outubro, na sequência de um acidente de automóvel.

É decepcionante que alguém que teve contribuições tão inovadoras para a ciência esteja perpetuando crenças tão danosas e tão infundadas cientificamente”, disse ao jornal The New York Times, o diretor do Instituto Nacional de Saúde norte-americano, Francis Collins.

Para Collins, o geneticista responsável pelo mapeamento do ADN humano, em 2001, as diferenças detetadas nos testes de inteligência não surgem de fatores genéticos: as pessoas com maior nível socioeconómico, melhor alimentação e melhor educação terão, em média, melhores resultados. E é mais comum que essas pessoas com recursos sejam brancas.