Ponto prévio: o homem de quem se fala faz esta quarta-feira 51 anos. Nasceu em 1966, em Eindhoven, filho de uma professora e de um professor de Inglês.

Delfim do poderoso ministro alemão das Finanças, para uns, e mal-amado por muitos mais dos seus pares europeus, sobretudo do sul da Europa, Jeroen Dijsselbloem continua a colecionar ódios de estimação e exigências para que saia de imediato da liderança do Eurogrupo.

Terça-feira, coube a vez a um grupo de eurodeputados do Partido Popular Europeu, maioritário no Parlamento Europeu, considerar que o holandês, militante do Partido Trabalhista, copiosamente derrotado nas recentes eleições do seu país, não tem condições para continuar no cargo.

Mas as exigências de afastamento grassam também entre os que militam na sua família política europeia, os Socialistas e Democratas, a começar pelo líder do grupo, o italiano Gianni Pitella. Além, claro está, de outros socialistas, caso do primeiro-ministro português, António Costa, para quem as palavras de Dijsselbloem foram "racistas, xenófobas e sexistas".

Na base de tudo está a imagem metafórica usada pelo ministro holandês das Finanças numa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Não posso gastar todo o meu dinheiro em mulheres e copos e depois pedir que me ajudem", foram as palavras que causaram polémica e que Jeroen Dijsselbloem nem considera ofensivas. Daí se ter escusado a pedir desculpas, que meio mundo exige, e só ter visto mover-se em sua defesa, Wolfgang Schäuble, o seu colega alemão das Finanças.

Sucede que acusações de posturas etílicas e dissolutas nem sequer são novidade no discurso de Dijsselbloem. Há poucos anos, alvejou o seu antecessor no Eurogrupo e atual presidente da Comissão Europeia com mimos do género, como relembra o jornal espanhol El Mundo.

"Um fumador e bebedor inveterado"

Foi em janeiro de 2014. Convidado do programa humorístico “Knevel & Van den Brink” na televisão holandesa, Dijsselbloem considerou que o seu antecessor Jean-Claude Juncker e futuro presidente da Comissão Europeia era "um fumador e bebedor inveterado".

Os rótulos levaram o holandês, mais tarde, a pedir desculpas, algo que lhe é tão habitual como dobrar a língua. Ou seja, raramente acontece com o homem, "sério, eficiente, distante e pouco empático", além de "patologicamente pontual e trabalhador", como a ele se refere o jornalista Pablo Suanzes, numa recente crónica publicada no El Mundo.

A maneira de ser de Dijsselbloem será seguramente tão desajustada para a cultura latina e mediterrânica como difícil é pronunciar o seu nome - já agora, algo aproximado a "ye-ROHN DAI-sell-bloom", como aqui pode ouvir -, dada a sua postura espartana e austera, segundo contam os que lhe são próximos e o próprio gosta de assumir.

Não me atrai o dinheiro. Sempre que via o meu nome na folha de pagamentos no Parlamento dizia sempre o mesmo: senhor, isto é um montão de dinheiro. Não gosto de luxos, gosto de simplicidade. Compro todo os meus fatos aqui na minha terra. Desde o primeiro dia que disse no Ministério: nada de suites, quero quartos normais. Porque chego tarde e abalo cedo", são palavras de uma entrevista do ministro holandês ao jornal Volkskrant, em 2014, segundo relembra o El Mundo.

O estilo calvinista assenta como uma luva ao holandês, que, apesar de até ser católico, usa a ética da corrente protestante para justificar os seus atos e palavras.

Lamento se alguém se ofendeu com o meu comentário. Foi direto e pode ser explicado pela estrita cultura calvinista holandesa", foi a justificação que deu há dias no Parlamento Europeu, quando confrontado com as suas polémicas palavras. E foi o mais perto que esteve de um impensável pedido de desculpas.

Agricultor e criador de porcos

Onde uns veem defeitos e uma cara de poucos amigos, outros descobrem virtudes. De acordo com o jornal El Mundo, no Eurogrupo, o conselho que reúne os ministros das Finanças dos países da zona euro, Jeroen Dijsselbloem é visto como o reverso do antecessor, o luxemburguês Jean-Claude Juncker. Se antes as reuniões eram longas, desorganizadas, cheias de debates ideológicos e com poucos progressos, agora são o seu contrário.

Permanece sempre calmo, mesmo quando está no meio de uma tormenta. Nunca vi Jeroen zangado. Tem uma paciência infinita", sublinhou Thomas Wieser, o austríaco que é o número dois do Eurogrupo, numa entrevista ao jornal holandês Vrij Nederland. Já ao El Mundo, um dos seus colaboradores mais próximos salienta que "uma das suas melhores qualidades é a sua calma e capacidade de priorizar e pôr em perspetiva qualquer situação".

O que faz feliz o holandês de 51 anos, segundo dizem os que lhe são próximos, é a pacatez e o sossego da pequena cidade de Wageningen, em cuja universidade se licenciou em Economia e Agricultura. Vive aí, com a mulher e os dois filhos, e é um agricultor amador nas horas vagas, criando porcos e outros animais domésticos.

Além da terra, Dijsselbloem é um leitor compulsivo que gosta de passar férias no campo - em Inglaterra, por exemplo - onde possa passear e andar de bicicleta. Tudo, menos sol e praia.

Erros e tiros no pé

Os seus assessores esforçam-se para que sorria mais. Mas a tarefa não é fácil, até porque, apesar da sua organização ultrametódica, o ministro holandês tem colecionado alguns erros de percurso.

Em abril de 2013, o seu gabinete teve de emendar o currículo de Dijsselbloem, quando foi detetado na Irlanda um acrescento, simplesmente falso. Apresentava um mestrado em Economia Empresarial na Universidade de Cork, quando na verdade apenas lá estivera uns meses.

Depois, à frente do Eurogrupo, teve um papel fulcral nos resgates às economias de países como a Grécia, Portugal, Espanha e Chipre. E foi precisamente na ilha mediterrânica que meteu água.

Como relembra o jornal El Mundo, dois meses após ter assumido a presidência do Eurogrupo, o holandês decidiu que até os depósitos inferiores a 100 mil euros dos cipriotas, mesmo que protegidos por legislação comunitária, deixavam de estar garantidos. Dois dias depois, teve de emendar a mão e pedir desculpas. Algo de que não gosta propriamente.