Joe Biden tomou posse esta quarta-feira como o 46.º presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Numa altura em que o país enfrenta uma nova vaga da covid-19, que já provocou mais de 400 mil mortos, e em que a convulsão social continua em altas, sobretudo depois da invasão de apoiantes de Donald Trump ao Capitólio, o novo chefe de Estado prometeu trazer unidade.

Começando por se dirigir aos mais altos representantes políticos presentes, incluindo o agora ex-vice-presidente, Mike Pence, Joe Biden falou no "dia da América e da democracia".

A América foi novamente testada, e voltou a ultrapassar o desafio. Hoje, celebramos o triunfo, não de um candidato, mas de uma causa, a da democracia", afirmou.

Lembrando o ataque ao Capitólio, Joe Biden pediu um país unido, numa transição que quer pacífica: "Serei o presidente de todos os americanos".

Num discurso sempre emocionado, personificou a mensagem de união, com uma mensagem vinda do "fundo do coração" em que agradeceu a oportunidade de poder ser presidente aos membros dos dois maiores partidos, Democrata e Republicano.

Citando o início da Constituição ("Nós, o povo"), vincou que a América depende de todos, num caminho para encontrar uma "união perfeita".

Falando diretamente ao povo, o presidente empossado mencionou a ultrapassagem de outros momentos difíceis na história.

Esta é uma grande nação, nós somos boas pessoas, e ao longo dos séculos, com guerra e a paz, víemos tão longe", referiu.

Apesar da esperança, Joe Biden admite que existe muito a "reparar, a reconstruir e a curar" na sociedade, que pode ganhar dessa mudança. Sobre a covid-19 em específico, comparou a perda de vidas, lembrando que já ultrapassou as da Segunda Guerra Mundial.

Foi aqui que o presidente se focou nos pontos que traçou para a ação imediata: pandemia, economia, clima e justiça social.

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Sobre as alterações climáticas, o democrata afirmou que "um grito de sobrevivência vem do próprio planeta, um grito que não pode ser mais desesperado ou claro".

Apostado em resolver estes problemas, Joe Biden afirmou que vai derrotar "o extremismo político, a supremacia branca e o terrorismo".

Vamos confrontá-los e vamos derrotá-los", acrescentou.

Para isto, Joe Biden reconhece que são necessárias mais do que palavras. Lembrando o antigo presidente Abraham Lincoln, o democrata afirmou, de forma solene, que investe "toda a alma" para resolver os problemas existentes nos EUA: "Peço que todos os americanos se juntem a mim nesta causa".

Com a intenção de colocar os EUA como líderes do Ocidente e do mundo de novo, Joe Biden reconhece que primeiro será necessário resolver alguns dos problemas internos, muitos dos quais diz existirem desde a fundação do país, em 1776.

Eu sei que falar de unidade pode soar para alguns como tolice, sei que as forças que nos dividem são profundas e reais, mas também sei que não são novas. A nossa história é feita de uma luta constante entre o ideal americano, de que todos somos iguais, e a dura realidade do racismo, nativismo, medo e demonização, que nos têm separado", afirmou, apontando momentos como as guerras mundiais ou o 11 de setembro.

É para isso que, com base na fé, dignidade e respeito, Joe Biden pede a tão desejada unidade, crucial para atingir a paz, o progresso e uma nação unida: "Temos de nos encontrar neste momento como os Estados Unidos da América".

A ideia passará por um "recomeço", baseado na tolerância e no respeito mutúo: "Vamos começar a ouvir-nos, a ver-nos, a mostrar respeito...".

Numa clara referência às muitas teorias da conspiração que ocorreram durante a presidência de Donald Trump, pediu que o povo rejeitasse a cultura de que todos os factos são "manipulados ou manufaturados".

Temos de ser diferentes disto, a América tem de ser melhor do que isto", afirmou, emocionado, lembrando o discurso de Martin Luther King e a manifestação pelo direito ao voto das mulheres.

Concretamente sobre a invasão ao Congresso, Joe Biden falou num ataque à democracia, afirmando que os valores americanos prevaleceram quando colocados em causa: "Isso não aconteceu, nunca vai acontecer. Nem hoje, nem amanhã, nem nunca".

Diretamente para os apoiantes de Donald Trump, o democrata pediu que reconsiderassem, mas que, mesmo que continuassem a discordar, têm de aceitar o funcionamento da democracia. Ainda assim, garantiu que será o presidente de "todos os americanos", repetindo a ideia, deixando implícito que também os apoiantes do antigo presidente estarão sob a alçada do seu mandato.

Vou lutar tanto por aqueles que não me apoiaram como por aqueles que o fizeram", referiu.

Uma história pessoal

No ponto relativo à economia norte-americana, que, como todas as outras, atravessa uma severa crise por causa da pandemia, Joe Biden contou uma história muito pessoal.

Seria um ainda pequeno Joe Biden que viu Joseph Biden Sr. em sérias dificuldades financeiras: "Percebo que muitos, como o meu pai, se deitem à noite na cama a olhar para o teto a pensar 'será que posso pagar o meu seguro de saúde? será que posso pagar o empréstimo da casa?'. Pessoas que pensam nas famílias, sobre o que vem aí. Prometo-vos que percebo".

Frente a esse problema, Joe Biden pede o fim a uma "guerra não civilizada", com base na confiança entre outros, uma guerra que diz estar a ocorrer em várias frentes: vermelhos contra azuis (republicanos contra democratas); liberais contra conservadores; rurais contra urbanos.

Podemos fazer isto, se abrirmos as nossas almas, se mostrarmos um bocadinho de tolerância, e se nos colocarmos nos sapatos dos outros", disse, lembrando uma expressão que a mãe lhe dizia.

Mesmo com estas diferenças, será este o caminho a fazer para atingir a união americana.

Defendendo a confiança na nação, Joe Biden pede que se lide, "não pelo exemplo do poder, mas pelo poder do exemplo".

Como primeiro ato oficial, o presidente empossado pediu uma pequena oração por todos aqueles que perderam a vida para a covid-19.

António Guimarães