Uma criança de dois anos caiu num furo de prospeção de água com 110 metros de profundidade na localidade de Totalán, em Málaga, Espanha. Segundo a imprensa espanhola, mais de cem operacionais da Guardia Civil, serviços de emergência, proteção civil e bombeiros estão envolvidos nos trabalhos de resgate, dificultados pelo facto de o orifício ser muito estreito.

O acidente aconteceu por volta das 14:00 (hora local) de domingo, quando a família viu a criança a cair dentro do furo com apenas 25 centímetros de diâmetro, sem conseguir fazer nada para o evitar. Yulen, assim se chama o menino, brincava com outra criança enquanto a família preparava uma paella para o almoço, numa quinta de um familiar, no monte Cerro de la Corona. 

Mais de 24 horas depois, as autoridades ainda não conseguiram chegar ao menino, tendo apenas encontrado um saco de doces e um balde de plástico que o menino tinha consigo.

Os bombeiros ainda tentaram recorrer a uma câmara para tentar perceber onde se encontrava a criança, mas esta só atingiu 78 metros de profundidade, porque o furo se encontra bloqueado por um tampão de terra. As autoridades temem que tenha havido uma derrocada e que o menino esteja soterrado. 

Durante a noite, os bombeiros conseguiram retirar cerca de 30 centímetros de terra e bombearam ar para dentro do poço. No entanto, de acordo com o SUR - Diário de Málaga, que cita a subdelegada do Governo em Málaga, María Gámez, foi encontrada uma superfície dura e os "trabalhos são muito complexos e complicados".

A família tem acompanhado as operações de busca de perto e no local está uma equipa de psicólogos para dar apoio aos pais do menino, dois jovens com cerca de 20 anos.

De acordo com o presidente do Consórcio Provicial de Bombeiros, Francisco Delgado Bonilla, citado pelo El País, a família ouviu a criança a chorar pouco depois de cair. No entanto, o menino já não é ouvido há várias horas. As autoridades não sabem em que estado se encontra a criança.

Como se vai processar o resgate?

A subdelegada do Governo em Málaga, María Gámez, explicou que as operações têm sido dificultadas porque "continua a cair material que se acumula, [o furo] é húmido e a zona é fria".

Não é fácil continuar as buscas ali", afirmou, acrescentando que as equipas estão a "dedicar o máximo da sua energia e do seu esforço" para encontrar Yulen. 

Gámez adiantou ainda que não se estão a preparar tecnicamente para resgatar um corpo num espaço tão estreito, mas adiantou que "existem tecnologias para aceder a sítios estreitos e profundos, como é o caso, e que todas estão a ser tidas em conta".

Por sua vez, Bernardo Moltó, porta-voz da Guardia Civil, assegurou ao jornal La Vanguardia, que o plano de resgate contempla três alternativas para resgatar a criança.

Extrair a terra, cavar um segundo furo paralelo ou escavar a céu aberto o furo atual. Se não acreditássemos que está vivo não estávamos a tentar todas estas opções", afirmou, acrescentando que o uso de uma câmara térmica foi descartado porque "a esta profundidade não tem capacidade".

Também o presidente de Málaga, Elías Bendodo, que enviou uma mensagem de ânimo aos pais de Yuelen e a todos os que o tentam resgatar, garantiu que tudo está a ser feito para resgatar a criança e garantiu que as equipas "não vão parar até encontrar o pequeno" e que espera que o possam encontrar "com vida".

O dispositivo empenhado nas buscas é composto por membros dos Bombeiros de Málaga (CPB), da Guardia Civil - incluindo a Equipa de Resgate e Intervenção de Montanha -, o Grupo de Especialidades Subaquáticas (GEAS), a Polícia Nacional e local e a Empresa Pública de Emergências Sanitárias (EPES). Foi ainda requisitada a intervenção do Grupo de Intervenção Psicológica em Emergências e Desastres (Giped) do Colégio de Psicólogos de Andaluzia e técnicos do centro de coordenação de emergências 112 de Málaga.

Já depois das 20:00 horas (19:00 em Lisboa) desta segunda-feira, uma máquina foi colocada no poço para iniciar a extração de terra através de aspiração, escreve a agência Efe.

Robot usado nas buscas

A empresa privada Limpiezas Pepe Núñez SL emprestou um robot - usado para limpar tubos com 15 ou 20 centímetros de diâmetro - para ser usado nas buscas. Graças às rodas dispostas de forma diferente, este robot desloca-se horizontalmente e, neste caso, vai ser usado sem trator para diminuir as suas dimensões.

De acordo com a administradora da empresa, Ana Núñez, foi o serviço de emergências que contactou a companhia para pedir a sua colaboração. No local, estiveram três técnicos que hoje foram substituídos por dois outros empregados.

Estes técnicos têm experiência na limpeza de canalizações, sendo que trabalham normalmente para encontrar anomalias nas redes de saneamento, mas esta é a primeira vez que participam num resgate deste género.

Construção do segundo furo pode levar dois dias

A principal dificuldade no resgate do menino é o diâmetro do furo, seguida da profundidade. Segundo o responsável da Unidade Especial de Emergência e Resposta Imediata da Comunidade de Madrid (ERICAM), Aitor Soler, “a primeira coisa a fazer é ver a que profundidade se encontra a criança e ver se está viva ou não”.

Em marcha está já a abertura de um furo paralelo, “muito maior para se conseguir trabalhar com comodidade, suficientemente afastado para que as vibrações não afetem o primeiro furo e não provoquem queda de pedras”. No entanto, a construção do segundo furo pode levar dois dias. 

Aitor Soler disse ainda que o furo atual deve ser “preservado” com tubos laterais para evitar que caiam pedras sobre as equipas e a criança. Quando a criança for localizada, o fundamental é hidrata-lo antes do resgate. Essa hidratação pode ser feita através de um tubo antes de conseguirem chegar fisicamente perto de Yulen. 

Soler acrescentou ainda que a vantagem do resgate de crianças em relação a adultos são que estes “não se dão conta da situação extrema em que se encontram”, o que os ajuda a resistir.

Irmão de Yulen morreu em 2017

Esta não é a primeira vez que a tragédia bate à porta dos pais de Yulen. Segundo o diário de Málaga, em 2017, José e Vicky viram o filho Óliver, de três anos, morrer vítima de um enfarte enquanto passeava pela praia de El Palo, no bairro onde vivem.

A história foi contada por vizinhos e amigos próximos da família, que não se conformam com o que aconteceu no domingo.  De acordo com uma amiga próxima da mãe e da avó de Yulen, o menino é um dos mais pequenos do bairro e "brinca com todos".

Gostamos muito dele, é amigo de todas as crianças", afirma. 

Já a avó materna de Yulen, que informou a comunicação social de que a família não vai prestar declarações, disse que estão a "viver um inferno".