Organizações de defesa dos direitos humanos denunciaram no domingo o Presidente demissionário do Peru, dois membros do Governo, ainda em funções, e responsáveis da polícia pelos crimes de homicídio agravado, abuso de autoridade e agressão.

A queixa "por graves violações dos direitos humanos" foi apresentada à procuradora-geral do Peru, Zoraida Avalos, na sequência da morte de dois jovens e de ferimentos causados em dezenas de manifestantes durante os protestos da semana passada em Lima contra o Governo de Merino, que acabou por apresentar a demissão este domingo.

No documento, apresentado por oito organizações de defesa dos direitos humanos, são visados, além do agora ex-Presidente Manuel Merino, o primeiro-ministro, Ántero Flores-Aráoz, e o ministro do Interior, Gastón Rodríguez, ambos ainda em exercício, e ainda o diretor-geral da Polícia peruana, Orlando Velasco, e o chefe da divisão policial de Lima, Jorge Cayas.

A polícia é acusada de ter reprimido severamente os protestos maciços que começaram na quarta-feira passada em Lima.

De acordo com a queixa, além da repressão dos manifestantes, a polícia de choque também atacou membros da imprensa com golpes diretos sobre o corpo, granadas de gás lacrimogéneo e chumbos.

Depois da morte dos estudantes universitários Jack Pintado, de 22 anos, e Inti Sotelo, de 24, o general Cayas declarou que a utilização de projéteis de chumbo foi um "incidente isolado", pode ler-se no documento.

O Presidente interino do Peru, Manuel Merino, apresentou este domingo a demissão de forma “irrevogável” e pediu “paz e união”, decisão que abre caminho a uma solução para a grave crise política que o país atravessa.

Manuel Merino, que estava no cargo desde 10 de novembro, anunciou a demissão numa mensagem à nação divulgada em vídeo, poucos minutos depois de o parlamento o ter desafiado a renunciar ao cargo. O parlamento tinha convocado uma sessão extraordinária para encontrar uma solução constitucional para a crise e um sucessor.

O Presidente interino sublinhou que agiu dentro da lei para tomar posse como chefe de Estado na terça-feira, apesar das acusações de que teria executado um golpe parlamentar.

As organizações apelaram para uma investigação criminal das pessoas envolvidas, uma vez que há também muitas pessoas feridas e mulheres que foram agredidas sexualmente após terem sido presas.

A Procuradoria-Geral da República do Peru já anunciou este domingo que está a investigar as mortes de dois jovens, no contexto de "graves violações dos direitos humanos".

Um deles foi atingido quatro vezes, uma delas no coração, enquanto o outro recebeu dez tiros de chumbo no crânio, rosto, pescoço, braço e tórax.

A severa repressão lançada pela polícia foi condenada pela Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), que exigiu "a investigação imediata dos factos e o apuramento de responsabilidades".

A organização também advertiu "que não existe informação precisa" sobre o número total de feridos e que o número de detidos no dia também não era conhecido, razão pela qual se juntou ao apelo do Gabinete do Provedor de Justiça peruano para fornecer essa lista.

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