Pessoas e mais pessoas, de todos os sexos mas sobretudo mulheres, encheram este sábado avenidas e praças em todo o mundo, de Londres a Sidney, contra o novo presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump. Manifestações de solidariedade com Washington, o epicentro dos protestos.

A designada "Marcha Mundial de Mulheres" realiza-se em cerca de 60 países replicando, em menor escala, o cenário da capital dos EUA, um dia depois do controverso multimilionário, Donald Trump, ter prestado juramento como 45.º Presidente da maior economia do mundo.

Na capital norte-americana, centenas de milhares de mulheres, muitas com chapéus cor-de-rosa brilhantes, marcham este sábado em oposição ao presidente empossado ontem. Nos cartazes pode: “As mulheres não recuarão" e "Menos medo, mais amor", entre criticas à postura de Trump em questões como aborto, diversidade cultural e mudanças climáticas.

A nova retórica populista do presidente empossado, muitas vezes irritada, irritou muitos norte-americanos liberais que consideram a sua postura degradante para as mulheres, mexicanos e muçulmanos, e motivo de preocupação para todos.

Segundo, notícia a agência Reuters, os protestos deste sábado parecem juntar mais gente na capital dos Estados Unidos do que aquela que se juntou ontem para assistir à "inauguração" da era Trump em frente nos degraus do Capitólio.

Organização revê número de participantes para 500.000

Os organizadores do protesto disseram à polícia que esperavam 200.000 pessoas mas, entretanto, já terão revisto em alta a sua estimativa para 500.000 pessoas, de acordo com o vice-presidente da câmara de Washington, Kevin Donahue, citado pela Lusa.

Uma medida da enchente são os relatos que falam de multidões no metro, comparativamente com sexta-feira, e até do caso de algumas estações terminais temporariamente encerradas por não caber mais alguém na plataforma.

O metro de Washington chegou mesmo a emitir um alerta de "atrasos em todo o sistema devido a multidões extremamente grandes".

Às 11 da manhã, 16:00 de Lisboa, tinham sido registada 275.000 passagens, mais 82.000 que as 193.000 do dia anterior, quando Trump tomou posse.

A Reuters falou com Elizabeth Newton, de 59 de idade, que viajou de Lafayette, Califórnia, para assistir à marcha e passou a noite em Baltimore. Quando ela e os seus amigos chegaram a uma estação ferroviária naquela cidade, para tentar apanhar o comboio para Washington, foram arrebatados pela multidão.  

Mesmo assim, diz a Reuters, que ao meio-dia, o protesto estava a ser pacífico. O que contrastava com o dia anterior, quando os ativistas anti-establishment partiram vidros, lançaram fogo e houve lutas com a polícia antimotim que respondeu com granadas stun.

Os protestos ilustravam a profunda raiva num país dividido que ainda está a recuperar da ferida provocada pela temporada eleitoral, em que Trump conseguiu derrotar a democrata Hillary Clinton, a primeira mulher nomeada para presidente por um dos maiores partidos no país.

Bonnie Norton, de 35 anos, e Jefferson Cole, de 36 anos levara a filha Maren, de 19 meses de idade para a marcha.  

"Estamos apenas perturbados por tudo o que Trump quer fazer", disse Norton à Reuters. Cole acrescentou estar satisfeito com o fato de não se repetir a violência de sexta-feira. 

Embora o partido de Trump controle a Casa Branca e o Congresso, o novo presidente enfrenta uma forte oposição pública no momento da tomada de posse, um período que é, tipicamente, de lua-de-mel entre o novo presidente e população.

Uma pesquisa recente da ABC News / Washington Post revelou que Trump tem a mais baixa popularidade de qualquer presidente eleito desde a década de 70.

Muitos manifestantes no sábado usavam chapéus e camisolas rosa com orelhas de gato e o solgan "Pussyhats", uma referência à afirmação de Trump num vídeo de 2005 tornado público semanas antes da eleição, em que ele agarrava mulheres pelos órgãos genitais e as beijava sem o seu consentimento.  

A marcha de Washington teve direito a oradores e celebridades numa caminhada de protesto ao longo do National Mall, o parque nacional da cidade.

Madonna, Scarlett Johanson e Michael Moore entre os manifestantes

Entre a multidão estavam figuras bem conhecidas, incluindo Madonna, as atrizes Scarlett Johanson e America Ferrera, o realizador Michael Moore e o ex-secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que foi acenando aos manifestantes enquanto caminhava com o seu cão labrador amarelo, Ben, noticia ainda a Reuters.

Vestindo um chapéu preto com orelhas de gato, a cantora Madonna discursou na manifestação, deixando uma mensagem de esperança: "O bem não ganhou nestas eleições [presidenciais, que deram a vitória a Donald Trump], mas ganhará no final".

Estão prontos para agitar o mundo? Bem-vindos à revolução do amor", acrescentou.

Também a cantora Alicia Keys, numa onda de energia, elogiou a força dos manifestantes e cantou a música "Girl is on Fire", enquanto a cantora Cher considerou que a subida de Donald Trump ao poder "deixou as pessoas mais assustadas do que alguma vez estiveram".

Anteriormente, as atrizes América Ferrera e Scarlett Johansson tinham deixado mensagens duras de resistência ao novo presidente dos Estados Unidos.

Têm sido tempos difíceis para ser tanto uma mulher, como imigrante, neste país. A nossa dignidade, os nossos direitos têm sido alvo de ataques", afirmou América Ferrera, descendente de primeira geração de uma família de imigrantes hondurenhos.

"Uma plataforma de ódio e de divisão chegou ao poder ontem [na sexta-feira]. Mas o presidente não é os EUA", acrescentou a atriz, que apoiou Hillary Clinton na corrida à presidência norte-americana.

Também a atriz Scarlett Johanson afirmou que não votou em Donald Trump, mas aproveitou para criticar a promessa do novo Presidente de acabar com os fundos públicos à organização sem fins lucrativos Planned Parenthood (Parentalidade Planeada).

Há consequências muito reais e devastadoras à limitação do que devia ser considerado como um acesso a cuidados básicos de saúde. Para milhões de americanos, a Planet Parenthood é, muitas vezes, a única clínica de confiança e acessível para a garantir educação social, o aborto em segurança e serviços salva vidas”, disse.

Por sua vez, o realizador Michael Moore foi mais gráfico e apresentou a capa de um jornal sobre a tomada de posse de Trump.

Lê-se que o presidente Donald Trump jura acabar com a carnificina americana. Pois nós estamos aqui para jurar acabar com a carnificina de Trump", afirmou o realizador, que assinou documentários como Farenheit 9/11.

Tal como noutros países, perto de mil israelitas, na maioria mulheres, juntaram-se à onda de contestação junto à embaixada dos Estados Unidos em Telavive.

Os manifestantes brandiam cartazes nos quais se liam “Hate is not Great” – uma frase associando os conceitos de ódio e grandeza, em reação ao lema de Trump, “Make America Great Again” (“Devolver à América a Grandeza”) – e “Women’s Rights are Human Rights” (“Direitos das Mulheres são Direitos Humanos”), noticiou a agência de notícias francesa, AFP, no local.

Uma marcha a que Lisboa não ficou indiferente. Marisa Matias, eurodeputada pelo Bloco de Esquerda, foi uma das figuras públicas que se juntou às mais de 100 mulheres que se manifestaram em frente à embaixada dos Estados Unidos em nome da democracia.

Trump começa 1º  dia de presidente em missa na catedral de Washington

Trump começo o seu primeiro dia como presidente numa missa realizada na Washington National Catedral. O evento é tradicionalmente realizado na manhã seguinte à tomada de posse.

Manhã em que também escreveu no Twitter: "Tenho a honra de servi-lo, o grande povo americano, como seu 45º Presidente da Estados Unidos! ", mas sem fazer qualquer menção aos protestos.