O delegado Maurício Valeixo, ex-chefe da Polícia Federal brasileira afirmou, durante um depoimento prestado à Justiça na segunda-feira, que o presidente o demitiu por querer no cargo alguém com quem tivesse "mais afinidade". 

Valeixo, no centro da demissão de Sergio Moro do cargo de ministro da Justiça do Brasil, relatou à Justiça, em Curitiba, que Jair Bolsonaro lhe disse que não tinha nada "contra a sua pessoa", mas que queria um diretor-geral para a Polícia Federal com quem tivesse "mais afinidade", segundo a imprensa local, que teve acesso a conteúdo do depoimento.

O inquérito em causa foi determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após as declarações feitas pelo ex-juiz Sergio Moro, em 24 de abril, que pediu a demissão do cargo ministerial e acusou o presidente brasileiro de estar a interferir na Polícia Federal, na sequência da demissão do ex-chefe Maurício Valeixo sem motivo aparente.

O presidente disse-me, mais de uma vez, expressamente, que ele queria ter uma pessoa do contacto pessoal dele [para quem] ele pudesse ligar, [de quem] ele pudesse colher informações, [com quem] ele pudesse colher relatórios de inteligência. Seja o diretor [da Polícia Federal], seja um superintendente", declarou Moro, na ocasião.

Segundo Moro, Bolsonaro queria interferir na Polícia Federal por estar preocupado com investigações em curso no STF, que podiam envolver os filhos ou aliados políticos.

Horas depois da demissão do ex-juiz, Bolsonaro negou as acusações, mas acabou por admitir que, em pelo menos três ocasiões, procurou obter mais informações acerca de investigações em curso: acerca do atentado que sofreu em 2018, sobre o caso que envolvia a presença dos acusados de matar a vereadora Marielle no seu condomínio e sobre uma eventual relação do seu quarto filho com a filha de um dos acusados do assassínio da vereadora. 

Na ocasião, Bolsonaro disse ainda que foi o próprio Maurício Valeixo a pedir demissão do cargo de diretor da PF, alegando "cansaço".

Contudo, no seu depoimento de segunda-feira, Valeixo afirmou que nunca formalizou um pedido de exoneração do seu cargo, ao contrário do que estava descrito no seu decreto de exoneração assinado por Jair Bolsonaro. 

O ex-diretor relatou ter recebido um telefonema do chefe de Estado na véspera da sua demissão, avisando-o que iria constar dos documentos que a exoneração ocorreu "a pedido" do próprio.

Via conversa telefónica, Bolsonaro alegadamente questionou o delegado "se concordava que a sua exoneração fosse publicada como 'a pedido'", tendo Valeixo concordado.

Segundo o jornal O Globo, Valeixo foi ainda questionado, no depoimento, sobre qual era a sua definição de “interferência política”, à qual respondeu que é quando há “uma indicação com interesse sobre uma investigação especifica”, acrescentando que isso “não ocorreu em nenhum momento”, no seu ponto de vista. 

O ex-diretor da Polícia Federal também disse que Bolsonaro nunca falou diretamente com ele "sobre a troca de superintendentes, nem nunca pediu relatórios de inteligência". 

Valeixo negou que Bolsonaro tivesse pedido informações sigilosas sobre inquéritos em andamento, mas citou, no seu testemunho, pedidos para a atuação da Polícia na investigação sobre a facada que Bolsonaro sofreu em 2018, numa campanha eleitoral, e no inquérito do caso da vereadora Marielle Franco, assassinada a tiro em 2018, e cujos homicidas foram identificados no condomínio do mandatário.

O delegado revelou ainda que se sentia "desgastado" de estar no cargo, tendo comunicado "diversas vezes ao ministro Sergio Moro o seu desejo de deixar a direção da Polícia Federal", desde que teve início a primeira crise entre Bolsonaro e a instituição, quando o Presidente manifestou, pela primeira vez, o interesse em trocar o chefe da Polícia no Rio de Janeiro.

No início do mês, também Sergio Moro depôs na Justiça sobre o caso, tendo denunciado que o chefe de Estado queria controlar a Polícia Federal do Rio de Janeiro através da indicação de um novo superintendente para aquele departamento. 

O STF determinou ainda a adição de outros quatro delegados, três ministros e da deputada Carla Zambelli, que deverão ser ouvidos ao longo da semana.

/ RL