O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, esteve esta tarde em Ceuta, onde se reuniu durante quase uma hora com o presidente da cidade, Juan Jesús Vivas, partindo depois para Melilla. Sánchez disse estar empenhado em defender "a integridade territorial de Espanha". Mas a crise diplomática causada pela entrada ilegal em Ceuta, em pouco mais de 24 horas, de cerca de oito mil migrantes oriundos de solo marroquino está longe de estar resolvida.

“Para que a cooperação [com Marrocos] seja eficaz, deve sempre basear-se no respeito pelas fronteiras mútuas, que estão na base da construção de uma relação de países amigos", afirmou Pedro Sánchez.

A integridade territorial da Espanha, e das suas fronteiras que são também as fronteiras externas da UE, serão defendidas pelo Governo da Espanha perante qualquer desafio e juntamente com os nossos parceiros europeus”, disse o primeiro-ministro.

Uma das estratégias de Sánchez para lidar com esta crise passa por sublinhar que esta fronteira espanhola é também a fronteira da União Europeia com África, por isso estes têm sido dias de intensos contactos diplomáticos.

Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, já manifestou publicamente o seu apoio a Espanha:

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também expressou a sua "solidariedade" com a Espanha. Num tweet publicado em espanhol, afirmou: “A Europa exprime a sua solidariedade com Ceuta e com a Espanha. Precisamos de soluções europeias comuns para gerir a migração ”. “Podemos conseguir isso se chegarmos a um acordo sobre o novo Pacto de Migração”, acrescentou. Numa segunda mensagem, Von der Leyen afirmou que para alcançar este objetivo as relações e compromissos com os parceiros são "cruciais": "Relações mais estreitas, baseadas na confiança e no compromisso mútuo com parceiros como Marrocos, são cruciais nesta missão."

Antes, também a comissária europeia para o Interior, Ylva Johansson, advertiu Marrocos que "as fronteiras espanholas são as fronteiras europeias". Johansson exigiu a Rabat que cumpra as suas obrigações de controlar as saídas irregulares e aceite o regresso das pessoas que saíram de Marrocos desta forma e que não têm o direito de permanecer em território europeu.

Entretanto, Rabat convocou  a sua embaixadora em Madrid, Karima Benyaich, para consultas pouco depois de esta ter sido recebida pela ministra espanhola dos Negócios Estrangeiros. Nessa reunião, Arancha González Laya terá manifestado o descontentamento do Governo espanhol perante a entrada massiva de migrantes em Ceuta e recordado que o controlo das fronteiras é uma responsabilidade partilhada pelos dois países. 

Tal como Sánchez, também a vice-presidente do Governo, Carmen Calvo, garantiu que o "ataque” às fronteiras espanholas que “ocorreu” nas últimas horas com a chegada em massa de migrantes a Ceuta “não pode fazer parte das boas relações de vizinhança que a Espanha mantém com Marrocos" e mostrou confiança de que a situação “voltará ao seu estado normal”.

Carmen Calvo preside esta tarde à reunião - que ainda decorre - da Comissão de Acompanhamento da Crise de Ceuta, que junta representantes de seis ministérios, incluindo Negócios Estrangeiros e Defesa e que procura delinear uma estratégia para os próximos dias.

Quatro mil pessoas já foram deportadas

Perante a passividade das autoridades marroquinas, a saída de pessoas do país em direção a Ceuta em embarcações insufláveis, a nadar e a pé foi constante ao longo de toda segunda-feira. Os migrantes tentavam chegar às praias ou trepar as altas cercas fronteiriças que separam este território espanhol no norte de Marrocos. Só na segunda-feira terão entrado em Ceuta cerca de seis mil pessoas, um número recorde.

Entretanto, a meio do dia de hoje, e já depois dos avisos dos responsáveis europeus, Marrocos destacou militares para as fronteiras, de forma a impedir as saídas ilegais, que continuaram, embora com uma diminuição do fluxo. No total, terão chegado a Ceuta cerca de oito mil pessoas.

Até agora, Espanha já devolveu quatro mil pessoas a Marrocos, de acordo com o Ministério do Interior. Os regressos são imediatos graças aos acordos sobre imigração assinados entre Espanha e Marrocos. O ministro Fernando Grande-Marlaska garantiu que não há menores entre os migrantes que foram deportados, o que significa que entre os que ficaram, para já, em Espanha, estarão 1500 menores.

“Não temos números dos que já levámos para o hospital”, diz Isabel Brasero, porta-voz da Cruz Vermelha.

Várias unidades do exército espanhol foram destacadas para Ceuta na madrugada desta terça-feira para ajudar a controlar as fronteiras e as ruas da cidade. Na praia do Tarajal, onde se acumulam muitos dos migrantes, quatro veículos blindados e muitos militares tentam manter a ordem.  Aqui, as equipas de emergência "parecem lebres ao longo da costa", relata o El Pais, recolhendo do mar "pessoas exauridas". O objetivo é agrupar os recém-chegados, colaborar na logística e ajudar a manter a calma nessas áreas e também em outros locais onde se verifica a presença de grupos de imigrantes marroquinos que circulam pela cidade.

Uma grande parte dos migrantes que chegaram na segunda-feira pernoitaram em parques ou em qualquer espaço que encontrassem disponível em Ceuta, cidade com quase 85 mil habitantes, e gastaram parte do seu dinheiro em garrafas de água, pão ou tabaco, de acordo com a agência espanhola EFE.

Para acolher este número recorde de migrantes, nomeadamente os adultos e antes da deportação, as autoridades locais disponibilizaram o principal estádio de futebol de Ceuta.

Já os migrantes que são identificados como menores de idade estão a ser enviados para armazéns administrados pela Cruz Vermelha e por outras organizações.

Espanha não concede aos cidadãos marroquinos o estatuto de requerentes de asilo, e apenas permite que crianças migrantes não acompanhadas permaneçam legalmente no país sob supervisão governamental.

A intenção do Ministério do Interior é, por isso, negociar com Marrocos o regresso dos imigrantes. O ministro garantiu que serão “enérgicos na defesa das fronteiras” e adotarão “todas as medidas necessárias para reverter a situação extraordinária e excecional”.

Desde segunda-feira, os Ministérios do Interior, da Defesa e das Relações Externas trabalham de forma coordenada. O Conselho de Ministros realizado esta terça-feira foi dedicado, praticamente na sua totalidade, à crise com Marrocos. Além de ter sido criada a comissão de acompanhamento da situação, o Conselho de Ministros aprovou uma ajuda de 30 milhões de euros ao Governo de Marrocos com o objetivo de tentar travar a imigração ilegal e combater o tráfico de pessoas. Esta ajuda já estava decidida antes dos eventos desta semana.

Entretanto, a ONU considerou hoje "muito importante" que Marrocos e Espanha cheguem a um acordo. "Eu vi o vídeo esta manhã e é bastante preocupante", disse a porta-voz das Nações Unidas, Stéphane Dujarric, na conferência de imprensa diária. "Penso que é muito importante que Marrocos e Espanha cheguem a um acordo para tentar acalmar a situação", acrescentou.

De acordo com Dujarric, a crise desencadeada nas últimas horas é "outro exemplo dos desafios que enfrentamos ao tentar gerir a migração global de uma forma humana e que respeite a dignidade humana das pessoas".

Maria João Caetano