As Forças de Defesa do Tigray (TDF, na sigla em inglês) afirmaram esta terça-feira ter “controlo total” da capital estadual, Mekele, depois da retirada do exército federal e do anúncio pelo governo etíope na segunda-feira de um cessar-fogo unilateral.

Gostaríamos de partilhar a grande notícia com todo o povo e amigos de Tigray de que a nossa amada capital, Mekele, está agora sob o controlo total das Forças de Defesa de Tigray”, fez saber através de uma declaração o governo estadual da Frente Popular de Libertação de Tigray (TPLF, na sigla em inglês), que tinha sido derrubado na sequência da ofensiva das forças armadas federais em 4 de novembro último.

“O povo de Tigray pode agora afirmar e exercer todos os seus direitos de cidadania porque derrotou as forças invasoras em resultado de uma unidade bem coordenada e heróica”, afirmou a TPLF na nota emitida esta madrugada.

O poder tigray restabelecido instou ainda a população a “estar em alerta constante para proteger toda a cidade e o seu povo contra qualquer força que possa tentar cometer crimes imperdoáveis contra vidas humanas e contra a propriedade”.

A declaração foi emitida após o Governo federal etíope ter declarado na segunda-feira um “cessar-fogo humanitário unilateral” na região norte - contra o qual tem mantido uma ofensiva de guerra desde Novembro - após a administração regional interina ter apelado à cessação das hostilidades.

Segundo fontes da administração provisória de Tigray, nomeada por Adis Abeba quando tomou posse do estado no norte do país, o exército federal etíope deixou Mekele na segunda-feira, quando as TDF assumiram o controlo da cidade.

Antes do anúncio do governo federal, Abraham Belay, chefe do governo estadual provisório tigray, tinha apelado na segunda-feira a uma solução política para o conflito e enviado uma proposta ao governo em Adis Abeba, liderado pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed.

“A abordagem da crise humanitária em Tigray é da responsabilidade do governo federal, não podemos esperar que seja feita pelo grupo rebelde, que está a brincar com as vidas do povo tigray”, afirmou Abraham Belay em declarações recolhidas pela televisão estatal etíope.

Mekele tinha sido tomada pelo exército federal em novembro de 2020, na sequência da ofensiva lançada pelo primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, para derrubar as autoridades locais da TPLF no dia 04 desse mês.

A operação de imposição da “lei e da ordem” foi decidida por Adis Abeba depois de as forças estaduais de Tigray terem alegadamente atacado bases militares federais em território tigray, de acordo com a explicação então avançada por Abiy Ahmed, Prémio Nobel da Paz de 2019, em reconhecimento pelo seu papel na reconciliação com a Eritreia e pela abertura reformista que tinha imprimido no país desde a sua chegada ao poder, no início de abril de 2018.

A reentrada esta segunda-feira das TDF em Mekele, depois do exército federal e a administração transitória imposta por Adis Abeba terem fugido no início do dia, representa um ponto de viragem no conflito, que dura há quase oito meses.

A TDF vinha a tomar várias pequenas cidades tigray desde o início de uma contraofensiva lançada há uma semana, precisamente no dia das eleições gerais etíopes, que não se realizaram naquele estado, assim como em cerca de um terço das circunscrições do país, admitindo-se que o plebiscito venha a ser concluído em setembro.

Os resultados das eleições do passado dia 21 ainda não foram anunciados, mas espera-se uma vitória do Partido da Prosperidade, de Abiy Ahmed.

O primeiro-ministro etíope é eleito pelo parlamento, pelo que o atual chefe do Governo etíope terá que esperar pela nova assembleia para receber finalmente a legitimação de um cargo que exerce desde 2018.

Os oito meses de conflito no Tigray foram marcados por numerosas violações dos direitos humanos de civis (massacres, violações, deslocações de populações) que suscitaram a indignação da comunidade internacional.

Segundo a ONU, pelo menos 350.000 pessoas encontram-se em estado de fome na região, o que o Governo etíope contesta. O conflito provocou já milhares de mortos, quase dois milhões de pessoas foram deslocadas internamente na região e, pelo menos, 75.000 etíopes fugiram para o vizinho Sudão, de acordo com números oficiais.

O Governo federal afirmou que o cessar-fogo durará até ao fim da atual “estação agrícola” e que tem como objetivo permitir o cultivo de culturas e a distribuição de ajuda humanitária, permitindo, ao mesmo tempo, aos combatentes rebeldes “retomarem um caminho pacífico”.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, classificou na segunda-feira os últimos acontecimentos no Tigray como “extremamente preocupantes” e considerou que “demonstram, mais uma vez, que não existe uma solução militar para a crise”.

Guterres manifestou ainda a “esperança de que se verifique uma cessação efetiva das hostilidades”.

Os Estados Unidos, a Irlanda e o Reino Unido solicitaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que poderá vir a ter lugar esta sexta-feira.

O Conselho de Segurança nunca analisou o caso do Tigray, uma ordem de trabalhos sistematicamente vetada por africanos, China, Rússia e outros membros do conselho, que alegam que a crise é um assunto interno etíope, de resto, como sempre declarado por Adis Abeba, que a designa como uma operação fundamentalmente policial, de “imposição da lei e da ordem”.

/ AG