O assassinato, no sábado, de um casal norte-americano e de um mexicano que trabalhavam no consulado dos Estados Unidos em Ciudad Juárez afectou o modo como o mundo olha para o México. Aquela que é conhecida como a cidade mais violenta do México deixou de ser um problema apenas do México para ganhar dimensão internacional. Assim o disse, esta quarta-feira, o Presidente mexicano, Felipe Calderón, durante uma visita àquela cidade fronteiriça com os Estados Unidos, a terceira que o chefe de Estado efectua em pouco mais de um mês.

«As coisas complicaram-se mais a partir de sábado, porque o que aconteceu ganhou dimensão internacional», disse Calderón, citado pela BBC Mundo.

À chegada a Ciudad Juárez, Felipe Calderón foi recebido por centenas de manifestantes que empunhavam cartazes com frases como «assassinos do governo». Calderón tinha previsto reunir-se com funcionários do consulado numa tentativa de convencer os mexicanos e Washington de que a estratégia de combate aos narcotraficantes, liderada pelo Exército, é a melhor para conter a violência crescente.

México chama EUA para debater violência na fronteira

Desta vez, o Presidente viajou até à cidade, que faz fronteira com El Paso, no estado norte-americano do Texas, na companhia da chanceler mexicana, Patricia Espinosa, e do embaixador dos EUA no México, Carlos Pascual. Felipe Calderón entende que a estratégia de combate aos narcotraficantes deve ser assumida pelo México e pelos EUA «como uma batalha que deve ser combatida pelos dois lados da fronteira como aliados, cada um em seu território, cada um no âmbito de sua competência, mas com uma estreita colaboração em matéria de informação, inteligência, e políticas públicas».

O presidente mexicano defendeu que o problema das drogas «é binacional, que tem uma origem comum e fundamental, que é o consumo de drogas nos Estados Unidos e a criminalidade associada a esse tráfico, e em consequência é responsabilidade dos dois países».

«Os homicídios recentes, de pessoas relacionadas com o consulado dos Estados Unidos na cidade, são verdadeiramente degradantes, inadmissíveis, profundamente lamentáveis», reiterou Calderón, que já tinha condenado o facto no último fim-de-semana.

Na mesma linha, a chanceler Patricia Espinosa ratificou «a firme vontade» do Governo mexicano «para investigar os homicídios e deter os responsáveis» e «agradeceu a cooperação oferecida pelas autoridades americanas».

Ponto de tráfico das Américas

México e EUA partilham uma fronteira de 3,2 mil quilómetros, pela qual passam milhares de imigrantes mexicanos e centro-americanos, mas não só... Do Sul para o Norte, circulam também milhares de armas e milhões de dólares, produto da venda de drogas.

A agência EFE refere que Ciudad Juárez é um desses pontos de tráfico, cujo controlo é alvo de uma disputa entre os traficantes de Juárez e de Sinaloa. O confronto entre os narcotraficantes já matou mais de cinco mil pessoas desde 2008.

Na cidade, com 1,5 milhão de habitantes, há também cerca de 500 assassinatos de mulheres não esclarecidos desde 1993.

Após a morte de 15 jovens estudantes que participavam de uma festa, a 31 de Janeiro de 2010, a indignação em Ciudad Juárez explodiu e obrigou Felipe Calderón a analisar pessoalmente a situação. Depois disso foi estabelecido o programa «Todos somos Juárez; vamos recuperar a cidade», que procura restabelecer as condições sociais.

Os mexicanos sempre apoiaram a política do Governo contra os cartéis de droga, mas face ao aumento da violência, as sondagens mostram que o México está cada vez mais descrente. Desde que Felipe Calderón chegou ao poder já morreram 19 mil pessoas.
Redação / AR