O ex-advogado do presidente dos Estados Unidos Michael Cohen vai afirmar, esta quarta-feira, perante o Congresso, em Washington, que Donald Trump conhecia as ligações entre a campanha republicana e a organização Wikileaks de Julian Assange.

No testemunho que foi enviado previamente aos meios de comunicação social norte-americanos Michael Cohen acusa o presidente dos Estados Unidos de ser “racista” e “burlão” e acrescenta que Trump “é um engano”.

Cohen foi condenado a três anos de prisão no final do ano passado pelas atividades que desempenhou na campanha eleitoral de Donald Trump em 2016 e deve começar a cumprir a sentença de cadeia efetiva a partir do próximo mês de maio.

Hoje, o ex-advogado do chefe de Estado norte-americano vai começar a testemunhar perante o Comité de Supervisão e Reforma da Câmara Baixa.

Trata-se da única sessão pública de um total de três audições no Congresso, em Washington.

Na declaração que está a ser antecipada pela imprensa, Cohen revela que Trump sabia que o colaborador Roger Stone – que também já foi processado – estava em contacto com a organização Wikileaks no sentido da publicação das mensagens de correio eletrónico do Partido Democrata durante a campanha presidencial de 2016.

Poucos dias antes da Convenção do Partido Democrata, eu estava no gabinete de Trump no momento em que a secretária anunciou que Roger Stone estava ao telefone. Trump colocou a conversa em ‘alta voz’. Stone disse a Trump que tinha acabado de falar com Julian Assange”, refere Cohen no testemunho que vai apresentar no Congresso.

Na conversa, Assange, fundador do Wikileaks, terá dito a Stone que dentro de “um par de dias” ia conseguir obter as mensagens de correio eletrónico que iriam “prejudicar a campanha de Hillary Clinton”.

Segundo Cohen, Trump respondeu que “seria genial”.

Michael Cohen refere igualmente no mesmo documento admitir que mentiu anteriormente perante o Congresso sobre os negócios de Trump na Rússia.

Em conversas que mantivemos durante a campanha (2016) enquanto eu negociava para ele (Donald Trump) na Rússia, olhava-me nos olhos e dizia: ‘não há negócios na Rússia’ e depois em público mentia aos norte-americanos e dizia a mesma coisa. À sua maneira estava a dizer-me para eu mentir”, indica Cohen.

Em considerações pessoais que constam da declaração, o antigo advogado pessoal de Trump define o presidente como “racista” sublinhando que “em privado é muito pior”.

“Uma vez perguntou-me se eu podia dizer o nome de um país dirigido por um negro que não fosse ‘um buraco de merda’”, escreve Cohen acrescentando que, numa outra ocasião, Trump terá afirmado num bairro pobre de Chicago que “só os negros poderiam viver daquela maneira”.

Cohen prevê entregar documentos ao comité do Congresso, além das cópias de um cheque bancário que terá recebido para pagar à atriz de filmes pornográficas Stormy Daniels para “silenciar” a relação que manteve com Donald Trump.

“Ele pediu-me para pagar a uma atriz de filmes para adultos com quem teve uma relação e para mentir à mulher dele sobre o assunto. Lamento ter mentido à primeira-dama. Ela é amável e boa pessoa. Respeito-a muito e não merecia”, diz Trump na mesma declaração.

O advogado vai também dizer que, durante a campanha presidencial, Trump lhe pediu para ameaçar estabelecimentos de ensino para que não revelassem as classificações académicas que obteve ao longo dos anos e que “mascarava” os rendimentos para aparecer na lista Forbes que depois negava para pagar menos impostos.

“Quando em 2008 me disse que ia cortar os ordenados dos empregados – incluindo o meu – mostrou-me o que disse ser uma devolução das Finanças de cerca de 10 milhões de dólares afirmando que não podia acreditar na estupidez do Governo”, recorda.

Cohen vai concluir a declaração - que vai ler perante o Congresso - com um pedido de desculpas “por ter trabalhado ativamente para esconder a verdade sobre Trump”.