O ex-presidente do Brasil Michel Temer afirmou não ver "predisposição" no Congresso do país para iniciar um processo de destituição contra o sucessor no cargo e atual chefe de Estado, Jair Bolsonaro.

“Não vejo no Congresso predisposição para avançar com o pedido de 'impeachment', especialmente tendo em conta a consolidação da Constituição que vai agora completar 32 anos”, salientou Temer, na sexta-feira.

Filho de libaneses, o ex-chefe de Estado brasileiro falava à agência espanhola EFE, durante uma escala técnica em Valência (leste de Espanha), no regresso ao Brasil após uma missão de ajuda humanitária brasileira ao Líbano, na sequência da forte explosão na semana passada.

Diante da moderação do discurso de Bolsonaro, que assumiu o poder em janeiro de 2019, Temer argumentou que, tal como aconteceu quando era presidente, o sucessor percebeu que o executivo "não pode trabalhar sozinho."

“Acredito que o Bolsonaro tenha verificado o mesmo e cumpre a Constituição brasileira, que determina a harmonia entre os poderes. Pode ser que no início de seu Governo tivesse expressões mais fortes, mas agora o seu discurso é mais moderado”, avaliou Temer, que presidiu ao país de 2016 a 2018, após a destituição de Dilma Rousseff (2011-2016).

Temer, que voltou à vida pública como consultor de Bolsonaro, negou sentir-se responsável pela mudança de atitude do atual chefe de Estado brasileiro.

O ex-presidente, que teve de pedir permissão especial para deixar o país devido aos processos judiciais de que é alvo, garantiu que enfrenta a Justiça com "a tranquilidade absoluta de quem sabe que não fez nada".

Em relação à pandemia da covid-19, Michel Temer indicou que embora o Brasil tivesse "diferenças na conceção do problema", a resposta à crise de saúde "foi adequada".

“O Brasil tem 210 milhões de habitantes e é complexo, mas acredito que a condução da crise foi adequada, tanto pelo Governo Federal quanto pelos governadores dos Estados”, apesar do número de mortes, destacou.

O Governo Federal do Brasil, o segundo país mais afetado pela pandemia depois dos Estados Unidos, destinou mil milhões reais (cerca de 156 mil milhões de euros) aos mais pobres e vulneráveis nesta crise, avaliou Temer.

“Sem dúvida, houve tratamento hospitalar adequado em grande parte do país e o Brasil também tem trabalhado muito para ter a vacina, em colaboração com outros países”, defendeu.

Questionado sobre se Bolsonaro devia ser processado internacionalmente pela gestão da crise sanitária, como foi pedido por muitos estados, Temer concluiu: “Não me parece ser o caso. Apesar das diferenças na conceção do problema, não houve falhas importante, sobretudo graças à colaboração entre o Governo Federal e os estados".

No total, o país sul-americano soma 106.523 óbitos e 3.275.520 infetados pelo novo coronavírus desde o início da pandemia, registada oficialmente no país em 26 de fevereiro.

/ AM