A vacinação contra a cólera “pode fazer a diferença”, mas é muito importante ter acesso a água potável. É o que lembra a diretora regional da OMS para África, apelando ao restabelecimento dos serviços após a crise provocada pela passagem do Idai.

Matshidiso Moeti, que visitou na semana passada a cidade moçambicana da Beira, uma das mais afetadas pelo ciclone, descreveu esta quarta-feira, a partir de Lisboa, a situação como "difícil" devido às infraestruturas de saúde que ficaram bastante danificadas, bem como a destruição das casas que obriga muitas famílias a partilharem espaços sobrelotados.

"É um grande desafio prestar cuidados básicos a pessoas nesta situação", declarou, à margem do 5.º Congresso Nacional de Medicina Tropical, no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa.

Temos visto no passado que as cheias anuais originam estes surtos e agora já temos mais de 3.000 casos porque as pessoas não têm acesso a agua potável e as redes de saneamento ficaram ainda mais destruídas do que já estavam anteriormente".

A responsável da OMS congratulou-se com o facto de já estar em curso uma ampla campanha de vacinação oral contra a cólera, mas assinalou que não é suficiente.

Quero enfatizar que a vacinação pode fazer diferença, mas precisamos de água segura, precisamos de trabalhar para melhorar o saneamento. Esperamos que depois desta fase de crise, seja disponibilizada ajuda para reabilitar e restabelecer os serviços normais para a população que foi afetada".

Questionada sobre o impacto das alterações climáticas na expansão de determinadas doenças em África, afirmou que os eventos climáticos extremos, como secas, obrigam as pessoas a deslocar-se devido à falta de água, muitas vezes para áreas sem acesso a cuidados de saúde, agravando a insegurança alimentar e a vulnerabilidade às doenças.

Por outro lado, as cheias ajudam a propagar os vetores (mosquitos) que disseminam doenças como malária, a dengue ou a febre-amarela.

"As alterações climáticas são um fator importante no desenvolvimento de alguns padrões de doenças a que temos assistido. Temos de ajudar os países a adaptar-se às alterações climáticas e juntarmo-nos às vozes que querem o abrandamento e contenção" destes efeitos, sublinhou Matshidiso Moeti.