Laura Sanz Nombela, de 38 anos, saiu pela primeira vez de Espanha com destino a Paris, numa viagem surpresa que o marido lhe preparou. A turista espanhola é uma das quatro vítimas mortais da explosão que aconteceu na sequência de uma fuga de gás, numa padaria parisiense, no último sábado.

Quando o marido, Luis Miguel Fontan Brea, a levou ao aeroporto de Barajas, em Madrid, na sexta-feira, Laura, mãe de três filhos de três, cinco e dez anos, não fazia ideia para onde ia. Às escondidas, o marido comprou os bilhetes de avião, reservou um hotel e pediu aos sogros para ficarem a tomar conta das crianças, de forma a organizar uma lua de mel já tardia.

De acordo com o jornal espanhol El Mundo, o casal nunca tinha feito uma viagem a dois, já que quando casaram não puderam viajar sozinhos. Depois do casamento, Laura engravidou e, a partir daí, para onde iam levavam sempre os filhos.

Necessariamente, quando embarcaram no avião rumo a Paris, Laura e Luis Miguel não esperavam que uma viagem tão desejada quanto romântica acabasse de forma tão trágica.

Hotel frente à padaria

No sábado, pouco antes das 9:00 na hora local (8:00 em Lisboa), no hotel que Luis tinha reservado no 9.º bairro da capital francesa, mesmo em frente a uma padaria parisiense, a Hubert, o casal percebeu que algo estava errado quando sentiu um cheiro intenso a gás.

Ele disse-nos que cheirava muito a gás. Poucos minutos depois, ouviram uma grande explosão e pensaram que era um ataque terrorista”, contaram familiares, citados pelo jornal El Mundo.

A fuga de gás ocorreu na padaria onde o casal até tinha planeado tomar o pequeno-almoço. A explosão causou a morte a Laura e a três outras pessoas: dois bombeiros e outra mulher, cujo corpo só foi encontrado no domingo.

Com a explosão, o corpo de Laura foi atirado com violência em direção à cama, tendo ficado debaixo dos escombros que começaram a cair no quarto. Os bombeiros conseguiram resgatar o corpo da mulher, que acabou por morrer no hospital.

Assim que as televisões começaram a dar conta do acidente, os pais de Laura, residentes em Burguillos, nos arredores da cidade de Toledo, iam assistindo a tudo à distância.

Tivemos de tirar a Dolores [mãe de Laura] de frente da televisão”, conta um familiar ao jornal El Mundo, que admitiu ainda que a presença constante de jornalistas à porta de casa de familiares de Laura piorou a situação.

Assim que soube do acidente da filha, José Luis Sanz Gutiérrez deslocou-se de imediato a Paris, com outro filho, contando com a ajuda de um grupo de motards a que pertence, Los Krackens.

O meu genro tinha-me perguntado se eu e a minha mulher podíamos ficar com as crianças. Queria surpreender a minha filha, era uma viagem de namorados, a primeira ida a Paris", contou o pai de Laura, José Luis Sanz Gutiérrez, ao jornal espanhol El Pais, já a partir da cidade de Paris.

Ao telefone com o jornal espanhol a partir do hospital onde a filha tinha perdido a vida horas antes, José Luis afirmou que se sentia “totalmente abandonado” pela embaixada espanhola e que ele, o filho e o genro tinham estado sozinhos no Hospital Universitário de Paris.

Estamos aqui no hospital, com a minha filha, que estava ligada a uma máquina de respiração artificial, mas só porque sim. Ela já tinha falecido”, descreve o El Pais.

Repatriar o corpo de Laura

A dor da família e do marido de Laura aumentou quando souberam que o corpo iria demorar dez dias a ser enviado para Espanha. No entanto, e com alguma pressão da família da vítima no consulado espanhol em Paris, os prazos encurtaram-se para “dois a quatro dias", segundo refere o jornal El Pais.

Em choque, a família tenta dar o apoio que Luis Miguel necessita, agora viúvo e com três filhos menores.

Tem de estar destroçado. Pensar que foi ele que organizou tudo e que a levou para lá. Como estará a sua cabeça, além dos ferimentos que sofreu e de tudo o que presenciou", contam familiares ao jornal El Mundo.

Laura trabalhava como caixa de supermercado no La Despensa, um centro comercial em Toledo, há 17 anos. A sua morte chocou os seus colegas e clientes.

Era uma grande trabalhadora, quando eles mudaram de loja dispensaram todos os funcionários menos ela… Era a primeira vez que viajavam só os dois e a primeira vez no estrangeiro. Um fim de semana, apenas três dias. Que azar. Nem dá para acreditar", contou um colega da vítima.

Também Toledo está de luto, com bandeiras a meia haste. Esta segunda-feira, foi decretado dia de luto municipal “como gesto de solidariedade e carinho". Emiliano García-Page, presidente da comunidade autónoma de Castela-Mancha, quis também prestar homenagem a Laura e enviou condolências à família pela rede social Twitter.

A minha consternação pelas pessoas que morreram na explosão no centro de Paris, incluindo uma mulher da nossa terra, que estava a visitar a capital francesa. Envio as minhas condolências pessoais, e também em nome do Governo de Castilla-La Mancha, aos seus familiares e amigos.”