Uma mãe doente de risco sobreviveu à Covid-19, mas perdeu a filha saudável para a doença, depois de terem sido internadas ao mesmo tempo, num hospital do Rio de Janeiro, no Brasil.

Os médicos do Hospital Municipal Moacyr do Carmo, na Baixada Fluminense, não detetaram comorbidades na jovem de 17 anos, que, segundo a progenitora, sempre foi uma criança saudável.

Kamilly Ribeiro viria a morrer no passado dia 14 de abril, após 20 dias internada.

Frequentemente, perguntavam-me se ela tinha alguma comorbidade e eu respondia sempre que não. Fizeram várias análises ao sangue e nenhuma apontou qualquer doença pré-existente", contou Germaine Herculano dos Santos, de 43 anos, à BBC.

A explicação para a sua morte pode estar na genética.

O nosso sistema imunológico é o responsável por definir se vamos responder bem ou não ao SARS-CoV-2. Geralmente, esse sistema está afetado em pessoas com comorbidades ou idosas, por isso estão nos grupos de risco. Mas, em alguns casos raros, o sistema imunológico tem uma falha pontual crítica mesmo sem comorbidades conhecidas e, por isso, a pessoa acaba por desenvolver um quadro grave ou até morrer devido ao coronavírus", explicou o infecciologista Alexandre Naime, chefe de Infeciologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), entrevistado pela BBC.

O médico deu como exemplo o caso de jovens saudáveis que morrem de gripe ou de outras doenças que raramente afetam os mais novos.

Tudo depende da sequência genética. No ADN estão codificadas as respostas em termos de anticorpos e ação celular quando há exposição a agentes patogénicos. São códigos que nascem com a pessoa e são chamados de memória imunológica", sublinhou.

Germaine deu entrada no hospital como doente de risco por ser hipertensa, mas recuperou da doença em poucos dias. Kamilly viria a sofrer complicações graves.

Estudos existentes apontam que os pacientes sem comorbidades e com menos de 50 anos correspondem a menos de 1% dos doentes graves com Covid-19. Estes últimos costuma apresentar doenças pré-existentes, como hipertensão, diabetes, problemas cardíacos e respiratórios, e cancro, entre outras.

Os médicos ficaram surpresos com o caso da minha filha. Não sabiam mais o que fazer, porque ela não tinha nenhum problema de saúde anterior. É difícil de entender", lembrou a mãe.

Mãe e filha receberam o mesmo tratamento, que incluiu hidroxicloroquina. Um tratamento defendido no Brasil pelo próprio presidente, Jair Bolsonaro, apesar das recomendações em sentido contrário da Organização Mundial da Saúde, que suspendeu temporariamente os ensaios clínicos devido a estudos que associam maior mortalidade ao uso deste medicamento.

A Covid-19 já fez mais de 26.500 mortos e perto de meio milhão de infetados no Brasil, o segundo país mais afetado pela pandemia, a seguir aos Estados Unidos.

 
Catarina Machado