Pelo menos 34 mil polacas procuraram abortos ilegais ou foram ao estrangeiro interromper a gravidez desde que a nova lei foi aprovada, há um ano, proibindo o aborto em quase todas as circunstâncias.

Os números são da Aborto Sem Fronteiras (ASF), um conjunto de organizações que ajudam as mulheres a terem acesso a abortos seguros. E até podem ser maiores.

A ter em conta há, ainda, segundo Mara Clarke, fundadora da ASF, o facto de muitos médicos estarem a dificultar as interrupções, previstas na lei, em caso de malformação do feto.

Estamos a ver mais mulheres com anomalias fetais desde que a lei mudou. Sabemos que a gravidade destas anomalias está a ser minimizada pelos médicos e que, em alguns casos, estão a atrasar deliberadamente o diagnóstico, para que as mulheres tenham o acesso ao aborto dificultado”, explicou, ao The Guardian.

A ASF garante que, num ano, mais de mil mulheres polacas foram ao estrangeiro interromper a gravidez já no segundo trimestre. As organizações ajudam-nas a ir a países como Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Espanha e República Checa, onde é possível realizarem um aborto seguro.

Entre as dezenas de milhares de mulheres que procuraram ajuda da ASF, pelo menos 18 mil acabaram em contacto com uma organização que facilita o acesso a pílulas abortivas.

Esta semana, um relatório da Human Rights Watch já alertava que a nova lei está a causar “danos incalculáveis”, sobretudo às mulheres e raparigas mais pobres, que vivem em zonas rurais, ou se encontram marginalizadas.

A 22 de outubro de 2020, o Tribunal Constitucional polaco, reformado pelo Partido da Lei e Justiça (PiS), e de acordo com a vontade desta formação política, proibiu a interrupção voluntária da gravidez em casos de malformação grave do feto, alegando que era "incompatível" com a Constituição.

A decisão resultou na proibição de todos os abortos, exceto em casos de violação e incesto ou quando a vida da mãe está em perigo. Tratava-se de apenas 2% dos casos de aborto neste país, na altura em que esta lei entrou em vigor, em janeiro deste ano.

Esta nova lei levou milhares às ruas em protesto durante várias semanas.

Catarina Pereira