É um costume cada vez menos comum, mas que ainda acontece. Na Mauritânia, os pais continuam a engordar as suas filhas, obrigando-as a comer desmedidamente, para que possam ter um casamento de sucesso.

Para muitos a gordura ainda é vista como beleza e riqueza e as raparigas são forçadas a comer muito e mexerem-se pouco. 

A minha família dizia que ninguém me queria porque sou fraca e feia. Resolvia o problema tornando-me gorda e bela. Só assim honraria a sociedade e os faria felizes. Isso ia ser mau para mim e eu não sabia, recorda Choueina Ahmed M'Barik, em entrevista ao El País.

Tem 24 anos, mas na altura tinha apenas 13 anos quando os seus pais a alimentaram à força, de forma a poder casá-la com o seu primo. O casamento não chegou a acontecer por causa de uma ativista de direitos humanos e, ironicamente, agora ninguém a quer por ser obesa mórbida. E com a obesidade vieram os problemas de saúde.

Engordei uns 30 quilos em oito meses. Era pequena e aumentei bastante de tamanho. Agora tenho muitos problemas de saúde, não valeu a pena. Na altura, se não comia, castigavam-me e, por isso, forçava-me a comer. Também me vigiavam para que não vomitasse o que comia", conta Choueina, que se lembra de ter de beber leite e comer pão a cada hora.

Atualmente, decorrem várias campanhas de sensibilização, inclusive públicas, para o fim destas práticas, como indica Aminatu Mint El Moktar, presidente da Associação Mulheres Chefes de Família e candidata ao Nobel da Paz em 2015.

Na versão moderna deste costume, as raparigas chegam até a tomar corticoides e fármacos animais para conseguir engordar, mas isto é mais comum nas zonas urbanas. Muitas acabam por morrer e outras sofrem crises cardíacas, reumatismo, deformações, ansiedade, dores no corpo, não conseguem dormir… Ficam fragilizadas e podem acabar com danos irreversíveis.”

Segundo relatos das vítimas, também era prática comum colocar objetos pesados à volta dos tornozelos das jovens, com o intuito de lhes dificultar a locomoção e impedir que se movessem.

Choueina Ahmed M'Barik diz agora que nunca imporia um costume destes a uma filha.

Jamais o faria. Ela não tem de sofrer as sequelas da desgraça que vivi, isto é uma forma de maus-tratos. Era um caso de ignorância, na altura. Agora o mundo está a mudar. Os homens já não olham para as raparigas mais gordas, já não está tanto na moda.”

Uma porta-voz das Nações Unidas na Mauritânia, Wahba Malloum, explica que este costume "era mais comum há 20 anos", porque as famílias "queriam assegurar uma situação financeira estável através do matrimónio das menores, que se tornavam mais atrativas com o aumento do peso, por parecerem mais adultas".

Esta responsável conta mesmo que as suas familiares obrigadas a engordar "morreram quase todas", depois de sofrerem de diabetes, do coração e, ainda, de cancro.