As agências da Nações Unidas alertaram esta quiinta-feira que está a fechar-se a janela para evitar a fome no Iémen, devastado pela guerra, e milhões de pessoas devem enfrentar alguma forma de crise alimentar no próximo ano.

Mais de metade dos 30 milhões de habitantes do Iémen correm o risco de cair em “níveis crescentes de fome” em meados de 2021, de acordo com uma declaração conjunta do Programa Alimentar Mundial (PAM), UNICEF e Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês).

“Esses números alarmantes devem ser um alerta para o mundo. O Iémen está no limite da fome e não devemos virar as costas a milhões de famílias que precisam desesperadamente de ajuda”, afirmou David Beasley, o diretor executivo do PAM.

O conflito no país mais pobre do mundo árabe começou quando rebeldes xiitas, apoiados pelo Irão, conhecidos como Huthis, capturaram a capital Sanaa em 2014, forçando o governo internacionalmente reconhecido a fugir.

No ano seguinte, uma coligação liderada pela Arábia Saudita de apoio ao Governo interveio para combater os rebeldes e conter a influência do Irão, transformando o conflito numa estagnada guerra por procuração regional. Desde então, mais de 100.000 pessoas – combatentes e civis – foram mortas.

O número de iemenitas prestes a enfrentar uma “fase de emergência” de insegurança alimentar – um prelúdio da fome – deve aumentar de 3,6 milhões para cinco milhões no primeiro semestre de 2021, segundo o comunicado da ONU.

A fase de emergência significa que as pessoas estão a sofrer “gravemente”, com alguns dos mais vulneráveis a morrer de fome, de acordo com a nota.

As três agências da ONU alertaram também que o número de iemenitas a sofrer atualmente de condições semelhantes às da fome poderia triplicar de 16.500 para 47.00 entre janeiro e junho de 2021.

“Não se equivoquem, 2021 vai ser ainda pior do que 2020 para as pessoas mais vulneráveis do Iémen. A fome ainda pode ser evitada, mas essa oportunidade está a escapar a cada dia que passa”, acrescentou Beasley.

Nos últimos meses, o Iémen testemunhou uma queda significativa na ajuda humanitária, uma vez que os principais países árabes doadores não cumpriram as suas promessas anteriores.

No mês passado, o chefe humanitário da ONU, Mark Lowcock, disse ao Conselho de Segurança da ONU que, do pedido de 2,8 mil milhões de euros para 2020 para o Iémen, a organização apenas recebeu 1,2 mil milhões de dólares (45%).

Em comparação, apontou, por esta altura no ano passado a ONU tinha recebido o dobro dessa quantia, quase 2,5 mil milhões de euros.

“Os cortes no apoio humanitário este ano, incluindo a assistência alimentar, eliminaram os ganhos anteriores de segurança alimentar e deixaram as famílias com disparidades cada vez maiores no consumo de alimentos. Os cortes no próximo ano vão continuar e podem ser ampliados, a menos que o financiamento seja recebido com urgência”, vincaram as agências.

/ RL