O responsável da ONU pelos inquéritos aos crimes ‘jihadistas’ defende que os membros do grupo extremista Estado Islâmico devem ter julgamentos semelhantes aos dos nazis em Nuremberga para que as vítimas sejam ouvidas e se desmistifique a ideologia.

"É uma montanha que temos de superar”, afirmou o especialista em direitos humanos em entrevista à agência francesa de notícias AFP, numa altura em que a ONU começa a analisar os 12.000 corpos encontrados em mais de 200 valas comuns e os 600.000 vídeos de crimes filmados pelo Estado Islâmico.

Tal como aconteceu em Nuremberga com os nazis, o mundo deve julgar o grupo Estado Islâmico para que as suas vítimas sejam ouvidas e a sua ideologia seja desmistificada”, defendeu Karim Khan.

Os julgamentos de Nuremberga, como ficaram conhecidos os tribunais militares internacionais organizados pelos Aliados depois da Segunda Guerra Mundial, tiveram como objetivo responsabilizar os líderes da Alemanha nazi pelo extermínio sistemático de seis milhões de judeus.

Aconteceram na cidade alemã de Nuremberga entre 1945 e 1946 e serviram de base à criação do Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, Holanda.

Há cinco anos, o autoproclamado Estado Islâmico passou a controlar um território do tamanho do Reino Unido situado entre o Iraque e a Síria, ao qual chamava califado, gerindo a vida de sete milhões de pessoas através de regras fundamentalistas do Islão e com punições que não eram usadas desde a época medieval.

Não era (apenas) um grupo de guerrilha ou rebeldes”, sublinhou o advogado britânico.

Karim Khan está a reunir, há cerca de um ano, testemunhos e documentos (já tem mais de 15 mil), viajando várias vezes para o Iraque com mais 80 pessoas para procurar provas dos crimes.

Segundo conta, as minorias consideradas “hereges” ou “satânicas” foram mortas aos milhares, torturadas ou escravizadas, enquanto as crianças eram transformadas em soldados.

O Estado Islâmico não tinha tabus, refere, lembrando que em pleno século XXI foram feitas “crucificações”, queimados homens vivos dentro de gaiolas ou empurrados de telhados e muitos foram decapitados ou transformados em escravos sexuais.

“E tudo isto foi filmado”, afirma Karim Khan.

Apesar do horror, estes crimes “não são novos”, admitiu o advogado.

“O que é novo no Estado Islâmico é a ideologia que alimenta um grupo criminoso”, tal como “aconteceu com os nazis”.

Atualmente, quase todos os dias há iraquianos condenados, muitas vezes à morte, mas nos seus julgamentos é apenas referida a acusação de terem pertencido ao Estado Islâmico, sem mencionar qualquer crime ou vítima.

Os processos e as provas ou testemunhos serão expostos publicamente, seja lá em que local do mundo for, porque essa é a única forma de virar a página, argumentou Karim Khan.

O Iraque e a humanidade precisam da sua Nuremberga”, disse o especialista da ONU.

Depois dos julgamentos de Nuremberga, “ninguém pode abraçar os princípios de ‘Mein Kampf’ [livro escrito por Adolf Hitler sobre a ideologia que defendia], os sinais de alarme da consciência coletiva foram ativados”, explicou.

Segundo adiantou na entrevista, Nuremberga também serviu para “separar o veneno do fascismo do povo alemão”, estabelecendo que “não houve uma responsabilidade coletiva”, mas sim pessoas responsáveis e que foram condenadas.

Um processo do Estado Islâmico “pode contribuir para separar o veneno do Estado Islâmico (que se reivindica sunita) da comunidade sunita iraquiana”, minoritária nesse país, onde dois terços da população são xiitas.

“Nuremberga educou a Alemanha e a Europa” e um julgamento do Estado Islâmico será igualmente útil ao Iraque e a “outras partes do mundo onde as comunidades podem estar vulneráveis à propaganda”, concluiu Karim Khan.