O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, expulsou hoje a embaixadora da União Europeia (UE) no país, a portuguesa Isabel Brilhante Pedrosa, horas depois de a UE sancionar 11 funcionários de Caracas.

Quem são eles para sancionar, para se tentarem impor com a ameaça? Quem são? Basta! É por isso que decidi dar à embaixadora da UE em Caracas 72 horas para deixar o nosso país e exigir respeito da UE”, disse Nicolás Maduro durante uma intervenção televisiva.

Maduro começou por explicar que a UE divulgou uma resolução “em que a supremacista UE sanciona aqueles venezuelanos que, formando parte de instituições do Estado, defendem a Constituição”.

Sancionaram a junta da direção da Assembleia Nacional ‘opositora’ porque negou-se a cumprir ordens da embaixada da UE em Caracas. Sancionaram um grupo de generais, um grupo de constituintes (membros da Assembleia Constituinte, composta unicamente por simpatizantes do regime)”, disse.

Depois, o chefe de Estado questionou “qual o motivo”, para responder: “Já basta do colonialismo europeu contra a Venezuela, da perseguição contra a Venezuela”.

Setenta e duas horas para que a embaixadora da União Europeia abandone o país. Já basta de intervencionismo colonialista, de ‘supremacismo’ e de racismo! Já basta!”, enfatizou.

O presidente venezuelano acusou ainda o embaixador de Espanha no país, Jesus Silva Fernández, de cumplicidade com um político opositor numa conspiração para realizar um golpe de Estado que incluiria o seu assassínio.

“A Venezuela reserva ações diplomáticas sobre o embaixador de Espanha pela sua participação na [frustrada] invasão armada de Macuto [a 03 de maio] e pela sua cumplicidade com os atos criminosos do senhor Leopoldo López. Esperem notícias nas próximas horas”, disse Nicolás Maduro.

A UE sancionou 11 funcionários do Governo do Presidente Nicolás Maduro e de vários poderes públicos venezuelanos.

Os sancionados são acusados de “atuar contra o funcionamento democrático da Assembleia Nacional (parlamento) e de violar a imunidade parlamentar” dos deputados, inclusive do líder opositor e presidente daquele órgão, Juan Guaidó.

Foram sancionados os deputados Luis Parra, Franklyn Duarte e José Gregório Noriega.

Na lista estão também os procuradores Farik Mora e Dinorah Bustamante, o diretor da Comissão Nacional de Telecomunicações, Jorge Márquez, o magistrado do Supremo Tribunal de Justiça Juan José Mendoza, o auditor das despesas públicas Elvis Amoroso, os membros da Assembleia Constituinte Tânia Díaz e Cladys Requena, e o secretário-geral do Conselho de Defesa da Nação, José Adelino Ornelas Ferreira.

Os sancionados estão proibidos de entrar no espaço europeu e os seus ativos ficam congelados.

A UE considerou ilegal a votação que levou à eleição de Luis Parra como presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, onde a oposição a Maduro é maioritária.

A suposta eleição de Luis Parra não foi legítima porque não respeitava os procedimentos legais e os princípios constitucionais democráticos", afirmou a UE.

"Os últimos desenvolvimentos agravaram ainda mais a contínua crise institucional e política na Venezuela e reduziram o espaço democrático e constitucional no país", acrescentou a UE, citada pela agência noticiosa AFP.

Isabel Brilhante Pedrosa exercia as funções de embaixadora da União Europeia na Venezuela desde fevereiro de 2018.

A entrega das cartas de acreditação da embaixadora teve lugar numa cerimónia, no palácio presidencial de Miraflores, em Caracas, transmitida pela televisão estatal venezuelana.

Enquanto Isabel Brilhante Pedrosa era recebida pelo Presidente Nicolás Maduro, a televisão estatal venezuelana destacava a assinatura de diversos acordos de cooperação entre Portugal e a Venezuela, ao longo de 11 reuniões da comissão mista de acompanhamento bilateral, particularmente na área do petróleo.

Entre 2008 e 2011, Isabel Brilhante Pedrosa, desempenhou as funções de cônsul-geral de Portugal em Caracas, período que coincidiu com o forte impulso político e económico das relações bilaterais, promovido pelos à data Presidente e líder da revolução bolivariana, Hugo Chávez (1954-2013), e primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates.

A Venezuela tem, desde janeiro, dois parlamentos (Assembleia Nacional) parcialmente reconhecidos, um de maioria opositora, liderado por Juan Guaidó, e um pró-regime, liderado por Luís Parra.

A crise política, económica e social na Venezuela agravou-se desde janeiro de 2019, quando Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino do país, até afastar Nicolás Maduro do poder, convocar um Governo de transição e eleições livres. Guaidó conta com o apoio de quase 60 países.

Colômbia, Bolívia e Paraguai condenam expulsão da embaixadora da UE 

Os Governos da Colômbia, Bolívia e Paraguai condenaram a expulsão da embaixadora da União Europeia (UE) na Venezuela.

Rejeitamos a decisão (...) tomada pelo regime ilegítimo de Nicolás Maduro. Continuamos em nosso apelo à comunidade internacional para impedir a tirania em nosso país irmão", afirmou o Ministério das Relações Exteriores da Colômbia numa publicação na rede social Twitter.

Por seu lado, o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai publicou outra mensagem na mesma rede social na qual "lamenta a decisão do regime ilegal de Maduro de expulsar o representante da UE na Venezuela".

O Governo de Mario Abdo Benítez, além disso, "insta a comunidade internacional a continuar a trabalhar pela cessação da tirania e a promover o regresso da democracia" na Venezuela.

Por outro lado, o Governo da Bolívia emitiu uma breve declaração também para condenar a expulsão de Brilhante.

O Governo da Bolívia condena a expulsão (...). E também reafirma seu apoio à União Europeia nos múltiplos esforços que está a fazer para alcançar uma solução pacífica e democrática para a crise na Venezuela", pode ler-se na nota oficial.

Já o político Júlio Borges, representante do líder opositor venezuelano Juan Guaidó perante o Grupo de Lima, condenou “a injusta expulsão".

Este é um novo atropelo da ditadura que reflete o seu desconforto perante as questões levantadas pelas democracias do mundo. Nicolás Maduro isolou a Venezuela dos nossos vizinhos e principais sócios, mas a pressão internacional continuará até alcançarmos a mudança que todo o país espera”, afirmou no Twitter.

Também o líder opositor e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles Radonski, expressou a sua “solidariedade com a embaixadora”.

Rejeitamos a expulsão. Solidário com a embaixadora, uma pessoa que sempre promoveu uma solução política e pacífica para os venezuelanos”, escreveu no Twitter.

/ CE/BC - notícia atualizada às 07:30