Nicolás Maduro Moros assumiu o cargo de 58.º presidente da Venezuela, numa cerimónia iniciada às 10:00 de Caracas (14:00 em Lisboa) no Tribunal Supremo de Justiça, evitando a posse na Assembleia Nacional, dominada pela oposição, que o considera "um usurpador", não aceitando os resultados das eleições de maio.

Juro pelo legado do nosso amado comandante [Hugo] Chávez, pelas crianças da Venezuela: não darei descanso ao meu braço, nem repouso à minha alma para defender o país", disse o presidente diante do presidente do Tribunal Supremo, Maikel Moreno.

No discurso de posse, Maduro anunciou que na próxima segunda-feira tenciona ir ao parlamento do país, para anunciar medidas políticas no início deste seu segundo mandato, de seis anos. Ainda assim, fez questão de se apoiar na Constituição do país para justificar que a mesma permite a investidura no Tribunal Supremo de Justiça, "quando tal não seja possível na Assembleia Nacional".

Esta é a faixa presidencial do comandante Chavez, porque a sua é a minha causa", afirmou Nicolás Maduro, num discurso marcado pela memória e exaltação do seu antecessor.

Num discurso iniciado realçando que o seu juramento seria "um passo para a paz na Venezuela", Maduro apregoou que a faixa presidencial pertence "ao povo rebelde e soberano da Venezuela. O povo é o presidente!".

Entre ataques à oposição, interna e externa, houve também lugar para Nicolás Maduro assumir erros que pretende corrigir.

Tem que haver uma mudança e corrigir os erros da revolução bolivariana", assumiu o presidente venezuelano, prometendo o "combate à corrupção".

O corrupto é pior do que o imperialismo norte-americano e só há uma forma de o vencer: com uma grande revolução moral, espiritual, de amor à pátria, à terra, à história".

Com o "imperialismo" do "estado gringo", forma como se referiu várias vezes aos Estados Unidos, Maduro repudiou igualmente governos de países vizinhos, como o "do fascista Jair Bolsonaro".

Amigos e inimigos

No longo discurso de posse, Maduro assumiu que "a Venezuela é vítima de uma guerra comercial, que se vê nas ruas", mas fez questão de louvar as delegações internacionais presentes na cerimónia.

O mundo é muito maior do que o império norte-americano e os seus satélites. Aqui está presente esse mundo!", afirmou Nicolás Maduro.

Com a maioria dos países latino-americanos ausentes da cerimónia de posse, Nicolás Maduro teve a seu lado três presidentes, que testemunharam a sua continuidade no cargo.

Uma foto de conjunto foi mesmo publicada pelo líder cubano Diaz-Canel, a par de Maduro, de Salvador, presidente de El Salvador e Evo Morales, da Bolívia.

Apesar dos três presidentes presentes, a Organização dos Estados Americanos (OEA) reuniu-se e aprovou uma resolução, quando Maduro era empossado, declarando ilegítimo este segundo mandato do presidente venezuelano.

De acordo com a agência noticiosa AFP, a resolução foi aprovada por 19 votos a favor, seis contra, oito abstenções e declara "a ilegitimidade do novo período de Nicolás Maduro que começou em 10 de janeiro".

Antes mesmo desta resolução, o Paraguai, segundo o jornal espanhol El País, anunciou o corte de relações diplomáticas com a Venezuela e o encerramento da sua embaixada em Caracas.

Colete amarelo

Deste lado do Atlântico, a União Europeia reafirmou que não reconhece a posse de Nicolás Maduro para um novo mandato como presidente da Venezuela.

Deixamos muito claro que as eleições presidenciais não foram livres e justas", disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maja Kocijancic, numa conferência de imprensa, lembrando "todos os apelos da comunidade internacional, incluindo a União Europeia, para que novas eleições se façam de acordo com os padrões internacionais".

A Europa foi também avaliada por Nicolás Maduro no discurso de posse, considerando o presidente que daí é visto com bons olhos pelas organizações sociais, sindicais e pelos "coletes amarelos".

Mandaram-me um colete amarelo de prenda. Talvez o estreie amanhã. Vou estreá-lo amanhã!", afirmou Maduro, recebendo um forte aplauso dos presentes no acto de posse, tão grande quanto o que teve quando criticou a União Europeia, exigindo "respeito pela Venezuela", frisando que "o colonialismo de há 500 anos já acabou".