O procurador-geral da Venezuela, Tarek Saab, afirmou sexta-feira que ordenou a detenção de 18 civis e militares por alegado envolvimento na ação pública de Guaidó de 30 de abril contra o governo de Nicolás Maduro.

Pedimos 18 mandados de detenção para civis e militares conspiradores, alguns com patente de tenente-coronel", disse Tarek Saab no canal de televisão estatal VTV.

Segundo o procurador, no âmbito do processo judicial aberto pelo ministério público para investigar a revolta de terça-feira em Caracas, foram realizadas 17 operações de investigação, sem precisar detalhes.

Obtivémos provas importantes. Eles [presos] vão ser muitos mais, provavelmente porque estão a trair muitos daqueles que foram presos", disse.

Quanto aos envolvidos nos atos, sublinhou que "serão severamente punidos, porque são traidores da pátria".

Saab também se referiu ao líder do partido em que milita Juan Guaidó, Leopoldo López.

Este homem tem estado lá por dias, ele não é um convidado, ele é um covarde que se escondeu lá. O senhor Leopoldo López sempre foi um covarde", disse.

O procurador acusou ainda López de ter "levado à morte" as mais de 40 pessoas que perderam a vida nos protestos de 2014 contra o governo de Maduro.

Um tribunal de Caracas ordenou a prisão de López por violar uma medida cautelar que o impedia de fazer declarações políticas.

O tribunal também ordenou que Leopoldo López continue a cumprir a sua sentença na prisão militar de Ramo Verde, onde permaneceu até meados de 2017.

A crise política na Venezuela agudizou-se, na terça-feira, quando o autoproclamado presidente Juan Guaidó, que é apoiado por cerca de 50 países, incluindo os Estados Unidos da América, desencadeou um ato de força contra o regime de Nicolás Maduro em que envolveu militares e para o qual apelou à adesão popular.

O regime de Maduro, que tem o apoio da Rússia, além de Cuba, Irão, Turquia e alguns outros países, ripostou considerando que estava em curso uma tentativa de golpe de Estado e não houve progressos na situação, aparentemente dominada pelo regime.

Nicolás Maduro, que tem sido alvo de forte contestação nas ruas, mas que aparentemente continua a controlar as instituições, viu as chefias militares confirmaram-lhe a lealdade, mantendo a situação do país num impasse.

Pelo menos cinco manifestantes morreram, três dos quais menores, e 239 ficaram feridos nos protestos que se seguiram ao levantamento liderado por Guaidó, segundo informações das Nações Unidas.

Instituto denuncia 244 casos de violação à liberdade de expressão desde janeiro

O Instituto de Imprensa e Sociedade da Venezuela (IPYS Venezuela) denunciou esta sexta-feira que desde janeiro ocorreram 244 casos de violação dos direitos dos venezuelanos.

A suspensão (da emissão) de meios de comunicação durante transmissões ao vivo, ataques a trabalhadores da imprensa, limitações no livre acesso à Internet, atos de intimidação de parte dos organismos de segurança do Estado e um discurso insultuoso contra os jornalistas violaram o direito à liberdade de expressão no país (Venezuela) em abril 2019", apontou o IPYS, no último relatório sobre a liberdade de expressão.

Os ataques à liberdade de expressão continuaram durante a cobertura jornalística de atos políticos de interesse nacional e de manifestações sociais, na terça-feira, 30 de abril, quando militares da Guarda Nacional Bolivariana expressaram apoiar o presidente da Assembleia Nacional e autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, em Altamira, no leste de Caracas.

Segundo o IPYS Venezuela registaram-se, no último dia do mês de abril, 22 casos de violação à liberdade de expressão. No entanto, durante o último mês o número de casos denunciados foi de 48. Mesmo assim abril foi o mês com menos casos registados este ano.

Entre janeiro e abril, foram registados 244 casos de violação da liberdade de expressão, na rádio, imprensa, televisão e plataformas digitais.

As violações ocorreram principalmente nos estados venezuelanos de Apure, Anzoátegui, Lara, Falcón, Táchira, Zúlia e na Área Metropolitana de Caracas.

A 30 de Abril, "a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) censurou quatro órgãos de comunicação social" por informações sobre os oficiais da Guarda Nacional Bolivariana (GNB, polícia militar) que manifestaram apoio a Juan Guaidó, entre os censurados encontra-se a estação Rádio Caracas Rádio (RCR), pioneira da radiodifusão na Venezuela, que viu ser suspendida a autorização para estar no ar.

A estação CNN Internacional foi censurada "depois de transmitir imagens de um tanque da GNB que atropelou diretamente vários manifestantes na autoestrada Francisco Fajardo" e a emissão da BBC Mundo foi também suspensa.

Já a rádio Stereo 102.7 (no Estado de Monágas) foi encerrada e os funcionários dos serviços secretos detiveram o locutor, José Muñoz, por divulgar informações sobre a "operação liberdade" promovida por Juan Guaidó.

Segundo o IPYS, as estações emissoras afetas ao regime apenas divulgaram declarações de membros do Governo que acusaram os militares rebeldes, Juan Guaidó e o líder opositor Leopoldo López de "terroristas".

Mesmo entre as televisões privadas prevaleceu a visão governamental e manifestações em apoio a Nicolás Maduro.

O IPYS dá conta de que ocorreram vários bloqueios da Internet.

Por outro lado, explica que "a falta recorrente de serviço elétrico estável provocou a paralisação parcial ou total das comunicações na Venezuela, principalmente no interior do país. Esta causa implica que os meios de comunicação e os jornalistas independentes fossem impedidos de realizar o seu trabalho em condições adequadas para o livre fluxo de informações na imprensa tradicional e digital".

Segundo o IPYS, as rádios foram o setor da imprensa mais afetados pelos apagões elétricos, durante os meses de março e abril.

/ CM