Ninguém tem dúvidas que Noa decidiu morrer. Ninguém duvida que o sofrimento se lhe tornou insuportável ao ponto ter tentado o suicídio várias vezes e ter mesmo pedido para ser eutanasiada. Noa Pothoven morreu no domingo e a sua morte foi noticiada no mundo inteiro como um caso de eutanásia, legal na Holanda, onde vivia, para crianças a partir dos 12 anos, desde que com consentimento dos pais e da comunidade médica.

Mas surgem agora dúvidas se essa foi mesmo a causa da morte da jovem, que não aguentou ter sido abusada sexualmente aos 11 e aos 12 anos e violada por dois homens aos 14.

Não é claro agora que tenha havido intervenção médica na morte da jovem de 17 anos. A família da jovem já veio aliás desmentir as notícias:

“Nós, pais de Noa Pothoven, estamos profundamente tristes com a morte da nossa filha. Noa esclheu não comer e beber mais. Gostaríamos de enfatizar que essa foi a causa de sua morte. Ela morreu na nossa presença no domingo passado. Pedimos a todos que respeitem a nossa privacidade para que nós, como família, possamos fazer o luto”, escreveram, num comunicado dirigido em inglês, à imprensa estrangeira, e divulgado pelo jornal holandês De Gelderlander

A versão que correu mundo obrigou mesmo a uma intervenção do Parlamento holandês. A porta-voz parlamentar, Lisa Westerveld, disse ao DutchNews que “tanto quanto se sabe, ela morreu porque deixou totalmente de comer”. Lisa Westerveld foi uma das pessoas a quem a família autorizou que visitasse Noa antes de ela morrer.

A jornalista do Politico, um portal de notícias, Naomi O’Leary, entrevistou Paul Bolwerk, o colega do De Gelderlander que acompanhou a história durante quase dois anos. De acordo com Paul Bolwerk, citado pelo Politico, Noa procurou, de facto, ajuda para ser eutanasiada, à revelia dos pais, mas esse desejo foi-lhe recusado.

A jornalista do Politico reforça que Noa estava “severamente doente, por causa da anorexia”, um dos problemas de que sofria decorrentes da pesada depressão em que se afundou por causa das agressões sexuais. Dias antes de morrer deixou totalmente de comer e de ingerir líquidos e, dada a sua condição física, terá sido isso que a terá conduzido à morte, que terá ocorrido sem qualquer intervenção médica, ao contrário do que foi inicialmente noticiado.

“Os meios de comunicação holandeses nunca noticiaram que a morte de Noa Pothoven tenha sido um caso de eutanásia. Essa ideia apareceu apenas na tradução feita para inglês das notícias holandesas”, defende Naomi O’Leary.

A jornalista acrescenta que “a família tentou vários tipos de tratamentos e Noa foi repetidamente hospitalizada”. “Nos últimos meses, ela levou a cabo várias tentativas de suicídio. Em desespero, a família tentou a terapia de choques elétricos, que foi recusada por causa da sua tenra idade”, acrescenta.

“Depois da recusa da terapia de choques, Pothoven insistiu que não queria mais tratamentos e foi-lhe instalada uma cama de hospital em casa, onde passou a ser tratada pelos pais. No início de junho, passou a recusar-se a ingerir qualquer líquido ou alimento e os pais e os médicos concordaram em não a obrigar a alimentar-se.”

“Uma decisão de administrar a uma doente cuidados paliativos e não a forçar a comer, a seu pedido, não é eutanásia”, reforçou Naomi O’Leary, depois de conversar com o colega holandês.

A verdadeira causa da morte de Noa é assim uma incerteza. Mas a sua história correu mundo e fez acordar consciências para o peso da depressão e reabriu a discussão em torno da eutanásia. O Papa Francisco, sem referir o caso, já se pronunciou.

Numa publicação no Twitter, Francisco lamentou a falta de ajuda a pessoas em tamanho desespero: “A eutanásia e o suicídio assistido são uma derrota para todos. A resposta a que somos chamados é nunca abandonar aqueles que sofrem, não desistir, mas cuidar e amar para restaurar a esperança.”