Vivemos em tempos do nunca. Dia após dia, semana após semana, constatamos que nunca antes aconteceu isto, que nunca antes aconteceu aquilo, e que agora é um vírus a desempenhar o papel de senhor do calendário, e já não os acontecimentos previstos e preparados pelos humanos. O vírus quer, o Homem tem pesadelos e a obra não nasce. Principalmente a obra coletiva, a que precisa de ajuntamentos, de grandes ajuntamentos, como o desporto.

Como não podia deixar de ser, na frente desportiva a pandemia do novo coronavírus tem infligido uma razia como nunca, pelo menos em tempo de paz. Wimbledon, o mais prestigiado torneio de ténis, foi simplesmente cancelado este ano, o que não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial. Num adiamento inédito, o Europeu de futebol já não será este verão, mas apenas no do próximo ano, restando ao adepto português a tíbia consolação de ver a seleção nacional manter o título de campeã durante cinco anos, e não apenas durante os normais quatro anos que decorrem entre cada fase final. Mas o maior terramoto provocado pela Covid-19 no mundo desportivo é de longe o primeiro adiamento de sempre de uns Jogos Olímpicos. Tóquio 2020 vai ter lugar apenas no verão de 2021.

A Olimpíada truncada

Realizados de quatro em quatro anos, tal como o Mundial de futebol, os Jogos Olímpicos modernos são o maior acontecimento desportivo no planeta. A sua periodicidade assenta numa tradição antiga de quase três mil anos, a dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, uma de tantas invenções da Grécia Clássica que continuamos a usar. Embora vindos de tempos ainda mais remotos, os Jogos antigos têm a sua primeira data de realização historicamente confirmada no verão do ano 776 a.C., uns 23 anos antes da fundação mitológica de Roma.

Numa Grécia politicamente fragmentada, o festival desportivo e religioso era um fator de unidade cultural dos povos helénicos, que de quatro em quatro anos enviavam os seus melhores atletas a Olímpia, no nordeste do Peloponeso. Tanto assim que no século IV a.C. os gregos começaram a contar os anos a partir de 776 a.C. em Olimpíadas, isto é, os períodos de quatro anos que separavam cada um dos Jogos Olímpicos. Quando no final do século XIX o barão francês Pierre de Coubertin impulsiona a criação dos Jogos Olímpicos modernos, é naturalmente recuperada essa tradição de calendário, com a edição inaugural dos Jogos em Atenas, em 1896, a ostentar o nome oficial de Jogos da I Olimpíada.

Por tudo isto, é fácil compreender que o Comité Olímpico Internacional (COI) e o seu presidente, o alemão Thomas Bach, tenham resistido durante meses a qualquer alteração de datas para Tóquio 2020, os Jogos da XXXII Olimpíada. Mesmo perante o facto da preocupante proximidade geográfica com o berço da epidemia, a China. A relutância manteve-se até quando numerosos eventos desportivos por todo o mundo tinham já sido cancelados ou adiados devido à pandemia, a nova senhora do calendário humano. Só a 22 de março, o COI anunciou estar a ponderar um adiamento, e que tomaria uma decisão definitiva no prazo de um mês. Mas os acontecimentos precipitaram-se, com o Canadá a anunciar no mesmo dia que não enviaria equipa nenhuma a Tóquio caso os Jogos se mantivessem marcados para o período entre 24 de julho e 9 de agosto deste ano. No dia 23, a Austrália segue o exemplo canadiano. E no dia 24, por fim, após uma conversa telefónica com Thomas Bach, é o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe a anunciar que ele e o COI estavam de acordo em adiar os Jogos para 2021.

Nunca os Jogos tinham sido adiados, nunca os Jogos foram realizados no segundo ano da nova Olimpíada, e não no primeiro, e nunca os Jogos tiveram lugar num ano ímpar. Além do receio da quebra da tradição, outro motivo de peso estava por trás da relutância do COI e dos organizadores japoneses em mudar as datas: a enorme dor de cabeça económica do adiamento. Oficialmente, o Japão já iria gastar 12,6 mil milhões de dólares com a realização de Tóquio 2020, embora haja estimativas de que o número real seja o dobro disso. E outras estimativas indicam que o adiamento para o próximo ano irá acrescentar mais 6 mil milhões de dólares à fatura total. Seja como for, os Jogos estão agora marcados para 23 de julho a 8 de agosto de 2021. Vão chamar-se na mesma Tóquio 2020. Pelo menos não se gastará mais dinheiro a mudar o logotipo, bandeiras, letreiros, cartazes e todo o “merchandising” associado a estes grandes eventos.

É um adiamento histórico, sem dúvida a crise mais difícil de gerir por parte do movimento olímpico nos seus 125 anos de história. Mas uma coisa o COI e a organização japonesa garantiram sempre: nunca esteve em cima da mesa a hipótese de pura e simplesmente desistir de tudo e cancelar os Jogos por causa da pandemia de Covid-19. A razão é simples. Mais uma vez, trata-se do precedente histórico.

A guerra e a paz

Desde a criação do olimpismo moderno na última década do século XIX, apenas por três vezes foram cancelados os Jogos Olímpicos. E em todas essas três vezes, o cancelamento deveu-se, claro está, a um motivo de força maior, uma tradição humana muito mais ancestral do que qualquer festival religioso ou desportivo: a guerra. Foram os dois mais devastadores conflitos bélicos em toda História a forçar esses cancelamentos.

Não era suposto ser assim na Grécia antiga. Os Jogos Olímpicos da Antiguidade tinham associados a si uma arma pacífica para garantir que os melhores atletas gregos - fossem atenienses, espartanos, coríntios, tebanos ou de qualquer outra das dezenas de cidades-estados helénicas - pudessem deslocar-se a Olímpia de quatro em quatro anos e participar nas festividades desportivas e religiosas dedicadas a Zeus, o pai dos deuses. Essa arma era a trégua sagrada. Ainda que em guerra, os vários potentados gregos tinham a obrigação de respeitar a trégua na época dos Jogos. Nem todos a respeitavam sempre, e por isso, durante vários séculos no primeiro milénio antes de Cristo, a supervisão e cumprimento da trégua sagrada esteve confiada aos temíveis guerreiros da cidade-estado de Esparta. Com maior ou menor violação da trégua, o certo é que os Jogos se realizaram ininterruptamente durante mais de mil anos.

No sangrento século XX, como se sabe, não houve nenhuma trégua sagrada quando meio mundo se lançou à garganta do outro meio mundo. Por isso, os Jogos da XII Olimpíada, marcados para 1940 em Tóquio, no Japão, foram cancelados em 1938 pelos próprios japoneses, já envolvidos na segunda guerra sino-japonesa desde o ano anterior. O COI escolheu então Helsínquia como palco dos Jogos de 1940, mas com o eclodir da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939, e da invasão soviética da Finlândia em novembro, foram definitivamente cancelados. A Segunda Guerra mundial forçou também o cancelamento dos Jogos de 1944 em Londres. Chegada a paz, a capital britânica viria a ser a sede das Olimpíadas de 1948. Helsínquia realizou os Jogos de 1952 e Tóquio acabou por realizar os de 1964.

Já antes, tinha sido a Primeira Guerra Mundial a provocar o cancelamento dos Jogos de 1916, previstos para Berlim. A Alemanha imperial chegou a construir um estádio para o efeito, o Deutsches Stadion. Inaugurado em 1913 pelo Kaiser Guilherme II, foi demolido vinte anos mais tarde para que fosse edificado no mesmo local o estádio olímpico de Berlim, epicentro dos célebres Jogos de 1936, onde Adolf Hitler viu a glorificação da sua Alemanha nazi e da suposta superioridade da raça ariana francamente embaraçadas pelo afro-americano Jesse Owens, vencedor de quatro medalhas de ouro.

Um pós-guerra epidémico

No final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, o movimento olímpico estava ansioso por regressar à normalidade e retomar a realização dos Jogos logo em 1920. Antes da guerra, em 1912, a Bélgica tinha-se candidatado a realizá-los, e foi mesmo a Antuérpia que a organização foi confiada em 1919. Como em tantas outras ocasiões, foi uma decisão política, aliás assumida pelo COI, com o propósito de homenagear a Bélgica, nação que sofreu quatro anos de dura ocupação alemã.

Havia pouco tempo e pouco dinheiro para preparar as Olimpíadas, e não foram poucas as críticas à decisão, nomeadamente na imprensa britânica da época. Não só se vivia ainda no meio de bastante destruição, penúria económica, instabilidade política e tensões revolucionárias na Europa, como além disso um novo inimigo fizera a sua aparição no mundo, no início de 1918, quase um ano antes de se calarem os canhões. Foi a mais grave pandemia de que há conhecimento após a Peste Negra do século XIV. Inicialmente até lhe chamavam peste pneumónica. Mas ainda durante a guerra, como a censura à imprensa era menos rígida na Espanha neutral do que nos países beligerantes, foi no país vizinho que mais se noticiou sobre a gravidade da epidemia, que pôs doente o próprio Rei Afonso XIII e que acabou por ficar mundialmente conhecida como a gripe espanhola. Ainda hoje, as suposições sobre a sua origem variam dos EUA à China, passando por França. Em dois anos, terá contaminado um quarto dos dois mil milhões de habitantes do globo. As estimativas da mortandade variam entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas, muito mais dos que os cerca de 20 milhões de mortos na própria guerra mundial. Em Portugal, por exemplo, a taxa de mortalidade da população em 1918 foi o dobro da habitual nos outros anos.

A gripe espanhola veio em pelo menos três vagas sucessivas, a mais devastadora das quais a segunda, no outono-inverno de 1918. Outubro desse ano foi o mês mais mortífero de toda a pandemia, que só terminou em 1920. Mas o pior já tinha passado em abril de 1919, quando o COI se reúne em Lausanne, na Suíça, cidade onde ainda hoje se encontra a sede da organização. Dos mais de 40 membros antes da guerra, só nove estiveram presentes, entre os quais o português José Capelo Franco Frazão, 1º conde de Penha Garcia, ex-deputado e ex-ministro monárquico, que durante um duelo em 1908 deixou ferido num braço Afonso Costa, o mais importante estadista da primeira década da República. Se havia alguma preocupação dos membros do COI com a gripe espanhola, ela não estava na ordem do dia. No topo da agenda, sim, a entrega dos Jogos a Antuérpia, enquanto o tema mais sensível foi mesmo a vontade de excluir dessas Olimpíadas os países derrotados na guerra: Alemanha, Áustria, Hungria, Bulgária e Turquia, ou seja, o que restava dos impérios centrais perdedores, e também a Rússia Soviética. Em vez de decidir por si próprio, o COI atribuiu à Bélgica a responsabilidade pelos convites, e os belgas não tiveram qualquer problema em não convidar aqueles países, a maioria até bem pouco antes seus inimigos no campo de batalha.

Cartaz dos Jogos Olímpicos de Antuérpia em 1920 realizados ainda durante a pandemia de gripe espanhola

Juramento, pombas e os cinco anéis

Embora com consideráveis deficiências organizativas, Antuérpia teve os seus Jogos entre 14 de agosto e 12 de setembro de 1920. Portugal participou com 13 atletas, nas modalidades de esgrima e tiro. Não trouxeram qualquer medalha da Bélgica, mas pelo menos voltaram vivos, ao contrário do que sucedeu oito anos antes nas Olimpíadas de Estocolmo com o maratonista Francisco Lázaro, falecido por desidratação após a prova.

Os Jogos do relançamento do olimpismo após o conflito mundial assistiram a várias estreias importantes. Foram os primeiros em que se pronunciou o juramento olímpico, os primeiros em que se soltaram pombas em sinal de paz, e os primeiros em que foi hasteada a bandeira com o símbolo olímpico, concebido por Pierre de Coubertin em 1913: os icónicos cinco anéis de cinco cores, entrelaçados sobre fundo branco.

O símbolo olímpico concebido por Pierre de Coubertin foi estreado nos primeiros Jogos a seguir à Primeira Guerra Mundial

São rituais que o mundo esperava ver repetidos este verão em Tóquio. Mas se já sabíamos que as grandes guerras cancelam Jogos Olímpicos, ficámos a saber agora que uma pandemia também pode adiá-los. Quanto aos Jogos da Antiguidade, não foi nem uma guerra nem uma epidemia que acabou definitivamente com eles. Foi um édito de 393 d.C., lavrado pelo Imperador Teodósio I, o último a reinar sobre o ocidente e o oriente romanos unidos. Teodósio, o Grande, era cristão e levou a cabo uma política de repressão sistemática da antiga religião greco-romana.

Miguel Cabral de Melo