Uma bebé que sofria de uma malformação na coluna foi operada ainda dentro do útero da mãe, numa cirurgia inovadora na Alemanha. Georgia Axford, de 19 anos, e Tyler Kelly, de 21, descobriram que a filha, Piper Kohl, tinha espinha bífida durante uma ecografia aos cinco meses de gestação.

A espinha bífida é uma malformação que ocorre a partir do primeiro mês de gestação e, simplificando, significa "espinha dividida em dois", segundo a associação portuguesa que representa e apoia os portadores desta doença. Ocorre quando algumas vértebras da espinal medula não se formam totalmente, permitindo que parte da medula se projete pela abertura dos ossos, causando danos ao sistema nervoso central. Nesta condição, ocorre um desenvolvimento incompleto do cérebro, da medula e das meninges, em que os membros inferiores podem ficar paralisados.

O casal, da cidade de Yate, Inglaterra, foi informado de que o único tratamento disponível para conseguirem salvar a criança era uma cirurgia, conhecida por cirurgia fetal endoscópica, que tinha de ser realizada na Alemanha.

A cirurgia fetal endoscópica ou fetoscopia é um procedimento que associa a ultra-sonografia e a videolaparoscopia para se visualizar e operar diretamente o feto, sem abrir o útero da mãe. As aplicações da fetoscopia têm sido bastante ampliadas nos últimos anos e várias doenças já podem ser tratadas através desta nova técnica. O objetivo da cirurgia fetal endoscópica é proteger, cobrindo ou fechando, a medula exposta para reduzir possíveis lesões. Esta nova técnica tem demonstrado resultados positivos, tanto para a mãe como para o feto.

Os pais de Piper pediram um empréstimo de 9000 libras (cerca de 10 mil euros) para conseguirem pagar esta cirurgia. Se tivessem optado por fazê-la no Reino Unido, seria com um médico que ainda não a tinha realizado antes. Acabaram por viajar até ao Hospital Universitário Gießen , em Giessen, na Alemanha, reconhecido internacionalmente neste tipo de operações.

Faríamos qualquer coisa para salvar a nossa filha”, afirmou Georgia, citada pelo The Sun.

Como decorreu a cirurgia

Na operação, que durou três horas, e que foi realizada aos seis meses de gestação, os médicos inseriram um fetoscópio – um pequeno telescópio, com câmera, luz e dois instrumentos – no abdómen da criança. Foi colocado um adesivo de colagénio na coluna de Piper com o objetivo de cobrir os nervos expostos e de reparar o desenvolvimento cognitivo dos membros inferiores, para que a criança não ficasse totalmente impedida de andar.

Embora a espinha bífida, que implica um defeito na formação do tubo neural, frequentemente seja tratada depois do nascimento, quanto mais cedo a intervenção for feita maior é a eficácia e os benefícios para a saúde a longo prazo. 

Após a operação ter sido bem-sucedida a 13 de julho, o casal voltou para casa, onde Georgia foi aconselhada a descansar até dia 2 de outubro, a data de nascimento prevista de Piper. 

No entanto, a bebé não quis esperar e, passadas seis semanas, a mãe entrou em trabalho de parto. Georgia foi levada para o hospital Southmead, em Bristol, onde foi submetida a uma cesariana. A menina acabou por nascer às 9:30 do dia 28 de julho.

Acordei às 23h e pensei que estava com umas dores estranhas, mas acabei por voltar a adormecer. No dia seguinte, às 12:30, estava já com muitas contrações."

Como forma de agradecimento pela forma como tratou e operou Piper, o casal colocou à menina o apelido do médico que a operou – Thomas Kohl.

Thomas Kohl é um ótimo cirurgião. Ele nasceu no mesmo dia que a Piper, por isso tudo fez sentido. Continuamos em contacto com ele e mantemo-lo a par do estado da nossa bebé. Gostávamos muito de a levar à Alemanha para ela poder conhecê-lo.”

Georgia disse ainda que não estava à espera que Piper nascesse tão cedo, dado que naquele dia tinham feito uma ecografia e nada apontava para um nascimento prematuro. "Foi estranho porque nós fizemos uma ecografia naquele dia e ela estava muito em cima. Olhando para trás, ela deveria era estar a preparar-se para sair”.

"Até agora tudo parece perfeito"

Nascida nove semanas antes do parto, a menina ficou internada dois meses para que os médicos se pudessem certificar de que o seu problema de saúde tinha sido resolvido e de que não iria afetar a sua vida.

Não vamos saber se a operação realmente funcionou até ela começar a andar, mas até agora tudo parece perfeito. Em alguns meses, a Piper vai tentar sentar-se sozinha e isso irá mostrar se tudo correu como esperado.”

Durante os meses em que a criança esteve internada, os médicos não detetaram nenhum sinal de paralisia nos membros inferiores e a menina nasceu “completamente saudável”.

Tomar ácido fólico antes de engravidar reduz a probabilidade de ter um bebé com este problema.