Se Sarah Gilbert tivesse dado ouvidos à sua intuição, hoje não estaríamos a falar ou a escrever sobre uma das vacinas mais promissoras contra a covid-19. Isto porque a investigadora, num determinado período da vida, ponderou abandonar a ciência e envergar por "algo diferente"

Há uns anos, Sarah era estudante de doutoramento, em ciências biológicas, mas tinha muitas dúvidas se deveria terminá-lo.

Existem cientistas que ficariam felizes por trabalhar mais ou menos por contra própria durante um longo período...Mas não é assim que eu gosto de trabalhar. Eu gosto de tentar, de levar a cabo várias ideias de várias áreas diferentes", disse em entrevista à BBC.

Por essa razão, pensou em "deixar a ciência e ir fazer alguma coisa diferente". No entanto, entendeu que deveria dar mais uma oportunidade à carreira científica até porque, confessou, "precisava do salário".

Quando terminou o doutoramento, foi colocada num centro de pesquisa de cerveja e tinha como função perceber como poderia manipular a levedura da cerveja. Mais tarde, acabou por trabalhar na saúde humana. Nunca quis ser especialista em vacinas, mas em meados de 1990 estava a trabalhar na Universidade de Oxford, como investigadora da genética da malária. Mais tarde, esse estudo deu origem a uma vacina contra a doença. 

Foi subindo na carreira e torna-se professora no Instituto Jenner (especializado em vacinas). Montou a própria equipa de investigação, que tinha como foco criar uma vacina universal contra a gripe, ou seja, contra todas os tipos de bactérias que pudessem dar origem a uma gripe. 

Há seis anos, liderou o primeiro teste de uma vacina contra a Ébola. Quando surgiu o vírus MERS-CoV (um coronavírus relacionado à síndrome respiratória do Médio Oriente), Sarah viajou para a Arábia Saudita para desenvolver uma vacina contra este coronavírus.  

O segundo ensaio dessa vacina mal tinha começado quando, no início deste ano, surge a covid-19 em Wuhan, na China. Foi aqui que Sarah percebeu que podia usufruir da mesma fórmula. 

Passaram-se algumas semanas até criar em laboratório uma vacina que fosse eficaz contra a covid-19. O primeiro lote só entrou em produção no início do mês de abril. 

Desde o início que encarámos isto como uma corrida contra o vírus e não uma corrida contra os outros que também estão a desenvolver vacinas" e acrescentou "somos uma universidade, não estamos nisto para ganhar dinheiro"

Sarah Gilbert, mãe de trigémeos - curiosamente, todos a estudar bioquímica na universidade - é descrita pelos colegas como uma pessoa com os pés na terra, consciente, determinada, com "uma coragem verdadeira" e que não gosta de ser o centro das atenções. 

Bom, agora torna-se um pouco inevitável uma vez que Sarah tem os olhos do mundo postos em cima de uma das vacinas mais promissoras, numa corrida em contra relógio. 

VEJA TAMBÉM:

Recorde-se que a vacina contra a covid-19 desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford demonstrou ter, ainda que em resultados provisórios, uma eficácia de 70% no combate ao vírus.

vacina britânica é, também, bastante mais barata, mais fácil de armazenar e, consequentemente, mais fácil de distribuir e chegar a qualquer parte do mundo que as concorrentes Pfizer e Moderna.

Cláudia Évora