A impressionante imagem de mais de 60 mil adeptos sem máscara nas bancadas da Puskás Aréna, na estreia de Portugal no Euro 2020, mostra como a Hungria está a lidar com a pandemia de covid-19.

Por estes dias, o país é uma espécie de ponta-de-lança europeu no avanço do desconfinamento. Ninguém usa máscara na rua, apenas no interior dos edifícios, e o cartão de imunidade, em vigor desde o início de maio, funciona como uma espécie de passaporte para alguma liberdade: permitindo fazer refeições dentro dos restaurantes, ir ao cinema ou visitar museus.

Já nem eu sabia eu sabia como dar um aperto de mão…", graceja o embaixador português na Hungria, Jorge Roza de Oliveira, sublinhando à TVI24 que "a campanha de vacinação tem corrido muito bem".

Na verdade, dar um «passou bem» voltou a ser uma coisa comum por aqui. As pessoas regressam do teletrabalho e Budapeste prepara-se para um verão com o regresso de alguns turistas, que de momento ainda não podem regressar.

A Hungria, onde vivem cerca de meio milhar de portugueses de forma permanente, é o segundo país da União Europeia, atrás apenas de Malta, com maior taxa de vacinação: 45 por da população já tem a vacinação completa (contra 25 por cento em Portugal, a título comparativo), sendo que 56 por cento já recebeu pelo menos uma dose (46 por cento em Portugal).

Agora quase que não há restrições. Houve uma altura em que só podíamos sair até às 20 horas e se fossemos apanhados pagávamos uma multa de um milhão de florins, que são cerca de três mil euros. Eles lançaram este cartão de imunidade numa altura em que na União Europeia ainda se estava a discutir o tema. E há também uma app para o telemóvel", mostra à TVI24 Nuno Miguel Gomes, português que trabalha como administrativo nos escritórios de uma empresa gasolineira.

É possível fazer o registo e escolher que vacina tomar

Neste momento, já estão a ser vacinados os adolescentes. Ainda não é o caso da filha de Nuno, que tem 14 anos. Todos os outros portugueses com quem a nossa reportagem falou, em Budapeste, já têm a vacinação completa.

É o caso de Nuno Silvestre, que trabalha com commodities, transacionando produtos da Península Ibérica, que explica o processo: "Quando abriu o registo online, no próprio site deram-me sete opções para escolher a vacina. Escolhi a Pfizer e pensei: ‘Vão marcar-me uma data para daqui a um mês…’ A verdade é que me convocaram para tomar a vacina logo no dia seguinte", explica, sublinhando uma diferença substancial do que acontece em Portugal, onde não é possível escolher que vacina tomar.

Quando chegaram aos cinco milhões anunciaram que iria abrir tudo. As restrições são uso de máscara dentro dos edifícios e pouco mais", acrescenta Nuno sobre o país, que "entrou numa fase de alguma normalidade há cerca de quatro semanas".

Apesar desta evolução, só na última semana o número de óbitos por covid-19 na Hungria baixou para valores abaixo dos dois dígitos. A fazer fé nos números avançados pelo regime de Viktor Orbán, nas últimas 24 horas registaram-se duas mortes e apenas mais 106 casos.

Com sensivelmente a mesma população e a mesma área de Portugal, a Hungria regista no total menos casos do que o nosso país (807 428 contra 861 628), mas mais mortes (29 950 contra 17 057). Para assinalar o número de óbitos, um grupo de cidadãos alinhou pedras com o número e a idade das vítimas ao longo da ilha Margarida, onde a seleção portuguesa está instalada neste Euro 2020.

Ainda assim, a evolução dos números tem sido positiva. Quem o confirma é Joaquim Pimpão, diretor do AICEP, que em setembro fará 42 anos a viver no país, o que lhe confere uma perspetiva mais profunda sobre todo o contexto.

Apesar de no início terem sido muito difundidas essas notícias, a esmagadora maioria tomou outras vacinas que não a chinesa e a russa. A Hungria começou mais cedo e este avanço da vacinação tem absolutamente tudo que ver com a realização do Campeonato da Europa. Mas não só… As próximas eleições são daqui a dez meses. Esta necessidade de mostrar que o país está bem é também uma arma política", adverte.

A realização de grandes eventos com público é uma forma de mostrar eficiência e de projetar uma imagem de triunfo da pátria.

Dentro de alguns meses, nas Legislativas da primavera de 2022, esse será seguramente um argumento eleitoral brandido pelo primeiro-ministro Orbán para conquistar votos.

/ Sérgio Pires em Budapeste