Um novo estudo, publicado na quinta-feira na revista médica mensal JAMA Pediatrics, dá mais uma pista sobre aquela que tem sido uma das principais incógnitas da pandemia do novo coronavírus: o papel das crianças na transmissão da doença.

De acordo com a BBC Brasil, os autores do estudo apontam que, quando as crianças estão doentes, elas possuem uma carga viral considerável que, a ser confirmada por novas investigações, pode significar uma capacidade relevante de transmissão da Covid-19.

E explicam porquê: porque os testes moleculares (PCR) encontram em crianças doentes com menos de cinco anos mais fragmentos do material genético do vírus – mas não o “vírus inteiro” – do que em crianças com mais de cinco anos e adolescentes, ou mesmo adultos.

Os investigadores do Hospital Infantil Ann & Robert H. Lurie de Chicago, nos Estados Unidos, reuniram amostras de 145 pessoas infetadas confirmada por PCR, com sintomas leves a moderados, no estágio inicial da doença.

Nota a BBC Brasil que estes pacientes pertenciam a três grupos: crianças até cinco anos (46 doentes), crianças entre os cinco e os 17 anos (51 doentes) e adultos entre os 18 e os 65 anos (48 doentes).

"Para tentar remover variáveis que pudessem causar confusão ou parcialidade, foram excluídos os pacientes mais doentes (os que precisaram de usar ventilador), os que estavam assintomáticos ou os que tiveram sintomas por mais de uma semana”, escreveu à BBC News Brasil, Taylor Heald-Sargent, médica e autora principal do estudo.

"O nosso estudo não examinou diretamente a multiplicação viral ou a transmissão do SARS-CoV-2, mas foi demonstrado para outros vírus que quantidades mais altas do patógeno podem aumentar a capacidade de transmissão. Isto aliado ao fato de que crianças pequenas são menos propensas a usar máscaras de forma consistente, manter uma boa higiene das mãos e evitar tocar a boca ou nariz, parece lógico (supor) que as crianças sejam capazes de transmitir o vírus a outras pessoas", afirmou Heald-Sargent.

A publicação destaca que "conforme sistemas de saúde planeiam a reabertura de creches e escolas, entender o potencial de transmissão das crianças será um guia importante para medidas públicas de saúde", assim como para o planeamento de quais serão os públicos etários prioritários de uma eventual vacina, acrescentam os autores.

Vírus, infeção e transmissão

Como apontou a pesquisadora, é importante lembrar que ter o material genético do vírus detetado no organismo é uma coisa, desenvolver sintomas outra e transmitir a doença para outras pessoas, também.

"Para ser sincera, os nossos resultados surpreenderam-nos e intrigaram-nos. Não sei dizer porque é que as crianças pequenas têm níveis mais altos de RNA viral, mas são menos sintomáticas que as crianças mais velhas e os adultos", afirmou a autora do estudo.

"Já foi apontado que esses altos níveis do vírus podem ser capazes de desencadear uma resposta imunológica mais eficiente, impedindo a propagação do trato respiratório superior para o mais baixo - o que significa que as crianças podem ter apenas sintomas de uma gripe e não desenvolver pneumonia. Também é possível que parte da patologia observada na Covid-19 seja devida à própria resposta imune. Talvez as crianças mais novas tenham realmente um tipo diferente de resposta imune ao vírus, que não causa danos a órgãos como os pulmões", sublinhou.

Do que tem sido revelado em estudos, os investigadores referem que, em geral, as crianças têm uma maior probabilidade de serem assintomáticas, ou de ter sintomas mais leves.

"E, em princípio, quanto menor a sintomatologia, menor carga viral, menor transmissão. Mas, nesse estudo, foram comparadas crianças com sintomas leves a moderados com adultos com sintomas leves a moderados. Foi o mesmo tipo de manifestação (da doença, entre crianças e adultos). Então, a criança pode transmitir igualmente. Não sabemos de algum fator que a impeça de infectar como adultos", apontou a infeciologista e pediatra, ressalvando também que o número de pacientes do estudo, 145, é relativamente pequeno.

"A criança transmite, mas precisamos de mais estudos para dizer o quanto”, rematou.

Lara Ferin