O presidente internacional da Médicos Sem Fronteiras (MSF), Christos Christou, alertou esta quinta-feira que negligências das autoridades brasileiras no combate à pandemia de covid-19 estão a custar vidas de milhares de pessoas no país.

Um cenário pior é esperado [no Brasil] nas próximas semanas e meses. Eu tenho de ser muito claro nisto, as negligências das autoridades do Brasil custam vidas. Mensagens públicas de saúde têm de ser associadas a mensagens políticas”, afirmou Christou, durante uma conferência de imprensa virtual sobre a situação da pandemia no Brasil.

“Usar máscara não é uma instância política, é, em parte, o que precisamos para diminuir a disseminação do vírus”, acrescentou.

A MSF divulgou hoje um diagnóstico sobre os problemas encontrados no país na resposta à pandemia, frisando que a falta de vontade política para responder adequadamente a emergência sanitária causou uma calamidade humanitária no maior país da América do Sul.

A organização também pediu às autoridades brasileiras que reconheçam a gravidade da crise e implementem um sistema central de coordenação e resposta à covid-19 para prevenir futuras mortes que continuam a ocorrer e são evitáveis.

Na conferência de imprensa realizada na sequência da divulgação do documento, Christou lembrou que o Brasil teve, desde o ano passado, quatro ministros da Saúde, o que mostrou a “instabilidade” na resposta dada pelo país à pandemia.

Questionada por jornalistas sobre a variante brasileira (P.1) e a ameaça que esta poderia causar em países vizinhos do Brasil na América do Sul, Meinie Nicolai, diretora-geral da MSF, que também estava na conferência de imprensa, frisou que uma nova estirpe de vírus pode sempre causar um grande problema para a saúde pública.

A não resposta tem facilitado ao vírus criar novas estirpes, mas tendo dito isto, [a variante] não é uma explicação para a situação que vemos no Brasil”, defendeu a especialista.

Comparando a situação do Brasil com a da África do Sul, que registou também uma estirpe mais transmissível, Meinie Nicolai frisou que no país africano a resposta coordenada das autoridades reduziu o número de casos e controlou uma grande transmissão da doença na segunda vaga, o que não aconteceu no Brasil, portanto, é possível perceber que no país sul-americano a resposta das autoridades foi uma falha.

Instada a fazer uma projeção sobre como estará a situação do Brasil em julho se as autoridades não mudarem a forma como combatem a pandemia, a diretora geral da MSF disse que a covid-19 já se mostrou uma doença imprevisível, mas lembrou que 80% da população do país ainda está suscetível a contrair o vírus SARS-CoV-2, portanto, se não houver medidas para controlar a disseminação comunitária, o sistema de saúde brasileiro e a população terão problemas maiores do que aqueles que existem atualmente.

Se nada mudar, estaremos numa situação pior [no Brasil] em julho, é o que podemos prever, porque a vacinação não está a cobrir uma parcela grande da população. Temos 80% suscetível e se nada mudar teremos uma situação mais catastrófica (...) Os números exatos, não podemos projetar”, concluiu.

O Brasil regista mais de 13,6 milhões de casos de covid-19 e a doença provocou 361.884 mortes no país desde o ano passado.

/ MJC