O governo brasileiro tem mostrado especial resistência em despertar para os perigos reais da pandemia de Covid-19. Prova disso, são os sucessivos discursos do presidente, Jair Bolsonaro, e as campanhas de propaganda, que aconselham os mais de 200 milhões de brasileiros a retomarem as suas vidas normais, sem qualquer cuidado especial de higiene ou distanciamento social.

À semelhança do resto do mundo, a evolução da pandemia no Brasil é séria e os números já dramáticos podem, ainda assim, esconder uma realidade bem mais negra. No estado de São Paulo, o mais afetado pela doença, há registo de pelo menos 201 casos de pessoas que morreram enquanto aguardavam o resultado do exame de despiste para a covid-19. O governo brasileiro, através do secretário de estado da saúde, José Henrique Germann, admite mesmo que ‘’uma parcela desses 201 óbitos vai dar positivo’’, o que quer dizer que o número real de casos detetados em São Paulo e no restante território brasileiro, pode ser muito superior ao que os dados oficiais apresentam.

No entanto, há quem nem sequer tenha a oportunidade para fazer o teste. Foi o caso de Olga, septuagenária. A sobrinha relatou ao El País (edição brasileira) que, apesar de a tia mostrar sintomas, não fez o exame. Nem em vida, nem depois de morrer:

Nunca foi feito exame de nada. É no mínimo estranho atestar que a morte de uma pessoa de 77 anos, com muita tosse e no meio de uma pandemia, foi por broncopneumonia, sem que nenhum teste fosse feito".

A ausência, o atraso na entrega dos resultados dos testes e a débil monitorização dos casos suspeitos são práticas que correm no sentido exatamente contrário às recomendações da Organização Mundial de Saúde. Uma vez que a deteção do caso é o primeiro passo para lhe barrar as hipóteses de contágio, os exames de despiste devem estar no topo das prioridades dos estados. De acordo com os especialistas, só assim se podem salvar vidas.

Uma estimativa feita por matemáticos britânicos aponta para que, no Brasil, 89% dos portadores do novo coronavírus sejam assintomáticos. Isto quer dizer que, tendo em conta a política de só testar quem apresenta sintomas, nove em cada dez casos de Covid-19 não são detetados. É essa subnotificação dos casos detetados que pode tornar a pandemia no Brasil, um país com uma incidência de pobreza extrema na ordem dos 6,5%, numa autêntica bomba relógio.

Desde o dia 20 de março (três dias depois da primeira morte confirmada em São Paulo) que o protocolo levado a cabo pelas autoridades brasileiras mudou. Caso se verifique um óbito que não apresente sintomas de estar infetado com covid-19, não é feita autópsia e o corpo vai a sepultar normalmente, não entrando para as contas oficiais. Já no caso de o doente ter sintomas, mas morrer sem ter feito o teste, a autópsia também não é feita (devido ao risco de contágio), mas é substituída por um questionário à família, para aferição da causa da morte. Foi o que aconteceu à sobrinha de Olga:

Foi feito um questionário com várias perguntas sobre a vida da minha tia, sobre os remédios que tomava. A muitas coisas, nem sabíamos responder’’.

Com base nas respostas da sobrinha, a história clínica de Olga resultou numa causa de morte ‘’desconhecida ou indeterminada’’. Neste caso, e apesar dos sintomas, o óbito também não entra para a contabilização oficial de vítimas do novo coronavírus, o que torna praticamente impossível saber-se, com exatidão, a dimensão da letalidade da doença no Brasil.

No total e até agora, o Brasil reportou 6.836 casos confirmados de Covid-19 e 240 mortos. Destes, ficam excluídos os possíveis casos positivos de doentes que já morreram e cujas famílias nunca saberão se sucumbiram, ou não, ao SARS-Cov-2.

João Morais do Carmo