O vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, coordenador da Task Force para a vacinação, garantiu, na quarta-feira, que Portugal está pronto para administrar 60 mil vacinas por dia em abril, mas lembrou que “não temos mais vacinas para fazer mais do que isso”.

Após sucessivos atrasos na entrega de vacinas à União Europeia por parte das empresas farmacêuticas, Portugal vacinou 11,6% da população com, pelo menos, uma dose da vacina, de acordo com os dados fornecidos pela Direção-Geral de Saúde. Apenas 4,8% dos portugueses já receberam as duas doses da vacina.

"Se Portugal estivesse sozinho, compraria menos vacinas e mais caras" afirmou António Costa, em janeiro, numa conferência conjunta com a presidente da Comissão Europeia, em que o primeiro-ministro classificou como “pouco inteligente” a decisão de adquirir unilateralmente por Estado-membro as vacinas, enfraquecendo a posição negocial da Comissão Europeia.

Em Israel, país onde já foram administradas mais vacinas contra a covid-19 por cada 100 habitantes, mais de 60% da população já foi imunizada. No topo seguem-se o Reino Unido, o Chile, Estados Unidos da América, Sérvia e a Hungria. Num processo muitas vezes controverso e marcado por avanços e recuos, negociações e atrasos, o que separa sucesso no processo de vacinação destes países dos restantes?

Israel

Voltemos um pouco atrás. No dia 7 de janeiro Netanyahu revelou que Israel tinha fechado um acordo com a Pfizer para obter 10 milhões de doses da vacina contra o novo coronavírus, incluindo uma promessa de entregas de 400 a 700 mil doses todas as semanas.

Sob este acordo, Israel fornecerá detalhes à Pfizer (bem como à Organização Mundial da Saúde) sobre a idade, sexo e histórico médico dos vacinados, bem como os efeitos colaterais e a eficácia. Nenhuma informação de identificação será fornecida, ao abrigo das leis de privacidade no país.

O acordo ocorreu depois da aprovação regulatória israelita que chegou em dezembro - antes da UE – quando o país registava mais de 495 mil casos de covid-19 e 3.689 mortes desde o início da pandemia - números alarmantes para uma população de 9 milhões de habitantes. Hoje Israel regista uma média de 384 novos casos diários e 11 óbitos por dia, longe do pico que se registou em janeiro.

Estados Unidos da América

Os Estados Unidos viviam dias negros quando a administração de Donald Trump anunciou a compra de mais de 200 milhões de doses da vacina contra a covid-19 desenvolvida pelo laboratório norte-americano da Pfizer e pela alemã BioNTech.

Isto após a FDA, o regulador norte-americano, ter validado os pedidos das farmacêuticas Pfizer e Moderna. Para trás ficou a promissora vacina desenvolvida em Oxford, a da AstraZeneca, que, meses mais tarde viria a gerar polémica na União Europeia, mesmo após ter sido aceite pelo regulador.

Tal como em Israel, o ágil processo de aprovação regulatória e uma negociação unilateral das vacinas tornaram mais fácil aos americanos vacinar de forma mais eficaz uma parte significativa da população.

Reino Unido

Já fora da União Europeia, a estratégia do Reino Unido passou por um processo de aprovação regulatória muito ágil, tendo aprovado a vacina da AstraZeneca, da Pfizer e da Moderna antes do resto da europa.

Apesar de administrarem a vacina da Pfizer, os britânicos estão a apostar sobretudo no fármaco da AstraZeneca, ambos negociados unilateralmente. Até ao momento, mais de 30 milhões de pessoas já receberam pelo menos a primeira das duas doses da vacina, no Reino Unido.

O aparecimento de casos de coágulos sanguíneos e mortes de pessoas inoculadas com este fármaco da AstraZeneca levou a maioria dos países europeus, incluindo Portugal, a suspender por uns dias a administração desta vacina, situação ultrapassada após a garantia da EMA de que é “segura e eficaz”.

Chile

Em menos de três meses, o governo chileno vacinou certa de 30% da população. O país é um oásis na américa latina e começou a negociar a compra de doses da vacina com bastante antecedência, após a aprovação sanitária de emergência por parte do regulador às vacinas da Pfizer/BioNTech e Sinovac.

O Chile já comprou mais de 36 milhões de doses e, agora, quer vacinar 80% da população até julho.

Hungria

Talvez o membro mais controverso do lote de países que mais vacinaram. A Hungria de Viktor Órban deu que falar ao ser o primeiro país do bloco europeu a “romper” do regulador europeu e aprovar a Sputnik V e a vacina da chinesa Sinopharm.

Segundo Orbán, os problemas com o fornecimento de vacinas justificam que a Hungria tenha recorrido à compra do fármaco da chinesa Sinopharm e da russa Sputnik, sem esperar pela sua autorização por parte da UE.

Se as vacinas não vêm de Bruxelas, temos de as obter de outros locais. Não se pode permitir que os húngaros morram simplesmente porque Bruxelas é demasiado lenta na aquisição de vacinas", afirmou Órban.

A utilização de vacinas chinesas e russas, e não apenas as aprovadas pela União Europeia, fará com que a Hungria seja em abril o país comunitário líder da imunização, prometeu o primeiro-ministro, Viktor Orban, em fevereiro.

Na altura, o polémico líder húngaro garantiu que hoje, domingo de Páscoa, 27% da população húngara estaria vacina com pelo menos uma dose do fármaco. Na altura, o país do leste europeu era o nono país com a taxa de vacinação mais elevada.

Os burocratas de Bruxelas falharam, pois assinaram contratos cujos detalhes não podem ser publicados sem o consentimento da outra parte", disse Orbán, numa entrevista à rádio pública Kossuth.

De acordo com o contrato divulgado, a Hungria, que encomendou cinco milhões de doses, paga 30 euros por cada vacina da Sinopharm, um preço muito superior ao que, de acordo com a imprensa, foi acordado pela UE com os laboratórios americano e alemão da Prizer/BioNTech, a 15,5 euros a dose, e com a anglo-sueca AstraZeneca, a 2,15 euros a unidade.

Pela vacina Sputnik V, a Hungria concordou pagar 9,95 euros por cada dose.