O Papa Francisco expressou apoio a um homossexual que, quando era criança, foi vítima de abusos sexuais por parte do padre chileno Fernando Karadima. Juan Carlos Cruz passou três dias com o líder da Igreja Católica no Vaticano em abril deste ano, juntamente com outros dois homens que também sofreram abusos na infância por parte de membros do clero do Chile.

Em declarações à CNN, Juan Carlos Cruz revelou que discutiu com Francisco a sua sexualidade e lhe confiou a sua história de vida, bem como o que sofreu às mãos do sacerdote chileno.

Sabes Juan Carlos, isso não interessa para nada. Deus fez-te assim. Deus ama-te assim. O Papa ama-te assim e tu devias amar-te a ti mesmo e não te preocupares com o que as pessoas dizem", disse-lhe Sumo Pontífice.

Para muitos, as palavras de Francisco provam mais uma vez a tolerância do Papa em relação à homossexualidade. O comentário é já considerado como o mais progressista vindo de um líder da Igreja Católica, já que, de acordo com os princípios do catolicismo, a homossexualidade é uma "desordem" e vai contra as leis de Deus.

Questionado pela CNN, o porta-voz do Vaticano preferiu não comentar as declarações do Papa argentino. Greg Burke justificou-se com o facto de a instituição não ter por hábito comentar em público sobre o que o Sumo Pontífice diz ou faz.

Há três meses, o Papa tinha acusado Juan Carlos Cruz de mentir em relação às acusações que fazia ao bispo Juan Barros, discípulo de Karadima. Francisco voltou depois atrás e acabou por convidar Cruz a ir ao Vaticano para lhe pedir perdão. O jovem confessou ter sido alvo de uma campanha difamatória por parte de vários membros da Igreja Católica chilena, que o acusaram de ser um "pervertido".

O padre chileno Fernando Karadima, hoje com 87 anos, foi condenado em 2011 pela justiça canónica a uma vida de reclusão e penitência, mas em 2015 o Papa nomeou o bispo Juan Barros, acusado de ter encoberto esses abusos. A escolha de Francisco causou polémica, mas a indignação aumentou durante a visita oficial que efetuou ao Chile, de 15 a 18 de janeiro. Nessa altura, Francisco defendeu publicamente Juan Barros, o que levou várias vítimas do padre Karadima a exigir um pedido de desculpas.

O Papa ordenou então uma investigação e o arcebispo maltês Charles J. Scicluna foi ao Chile recolher depoimentos das alegadas vítimas de abusos. Depois de ler o relatório, que inclui 64 testemunhos, Francisco admitiu em abril ter cometido “erros graves” na avaliação do escândalo de abusos sexuais no Chile, por não ter recebido "informação verdadeira e equilibrada”. Convidou então as vítimas que tinha desacreditado a irem a Roma para lhes pedir perdão e solicitou "a colaboração e a assistência" do clero chileno "no discernimento das medidas” que devem ser adotadas.

Na sexta-feira passada, 34 bispos chilenos viram-se obrigados a pedir renúncia depois do líder da Igreja Católica os acusar de terem encoberto os vários casos de abusos sexuais que aconteciam dentro da Igreja do Chile e destruído provas que incriminavam os seus responsáveis.