A visita do Papa Francisco ao Iraque pretende “difundir a ideia de que a paz é possível depois de tantos conflitos”, escreve Rafael Navarro-Valls, professor de direito constitucional espanhol. Mas são muitos os perigos à espreita neste curto intervalo de três anos que dista o desaparecimento do Estado Islâmico da região e a crise do Irão com o mundo, apenas a aguardar uma oportunidade para aparecer com um novo episódio.

Num artigo de opinião publicado no El Pais, Rafael Navarro- Valls lembra que as milícias deram tréguas durante alguns meses enquanto Joe Biden assumia a presidência dos EUA, mas essa paz parece estar a acabar, tendo em conta que nos últimos 20 dias ocorreram quatro atentados na região. O objetivo será forçar os Estados Unidos a negociações com o Irão.

Citando Raed Hamed, um investigador iraquiano especializado em grupos armados, existirão mais de 40 grupos extremistas na região, mas não serão mais de meia dezena os que podem ter uma dimensão preocupante, com o libanês Hezbollah à cabeça, e, segundo estima Hamed, com 160 mil combatentes.

A embaixada dos Estados Unidos em Bagdad lançou esta semana um alerta para uma iminente “ameaça de ataques com mísseis ou drones contra civis ou outros alvos no Iraque” por parte de grupos armados apoiados pelo Irão. Há dez mil forças de segurança a proteger o Papa e garantir que esta visita decorre sem incidentes.

A visita do Papa Francisco começou às 11 horas de sexta-feira, com o avião papal a aterrar em solo iraquiano, um momento histórico para a igreja e ecumenismo. Os cristãos, muito perseguidos pelo Estado Islâmico, sempre foram minoritários no Iraque, apesar de terem representado um pilar na paz da região.

A presença dos cristãos no Iraque remonta ao apóstolo São Tomás no primeiro século depois do nascimento de Cristo.  Aqui se fundou a Igreja Católica Caldeia, que se mantém ao longo de dois mil anos, que têm como línguas litúrgicas o siríaco e o aramaico.

Antes da invasão dos EUA no Iraque de Saddam Hussein, em 2003, os cristãos representavam 6% da população iraquiana, mais de um milhão e meio de fiéis, um número de hoje não passará os 200 mil. Os cristãos caldeos foram dizimados, obrigados a reconverterem-se e, os que puderam, exilaram-se. Em 2010, recorda Rafael Navarro- Valls no seu artigo do El País, foi destruída a hierarquia cristã e, desde 2014, com a chegada do Estado Islâmico ao Iraque, a perseguição foi grande: 34 igrejas destruídas, 132 queimadas e 197 parcialmente destruídas. Pelo menos 20% das igrejas que restaram acabaram fechadas.

Num dos momentos altos desta viagem, o Papa Francisco encontrou-se sábado com o principal líder religioso xiita, o aiatola Ali al-Sistani, em Najaf, num gesto considerado histórico nas relações entre o Vaticano e o Islão.

A mensagem desta viagem está centrada na fraternidade, o tema desta viagem papal, claramente uma terceira via que se afasta do discurso apocalíptico de apostatas ou mártires, considera Navarro-Valls. Essa terceira via terá como objetivo “dar alento aos cristãos, animando-os a perseverar a sua presença no país e esperar que regressem muitos exilados”, refere.

Para Rafael Navarro-Valls, a visita do Papa ao Iraque é como a de “um anjo da paz sobre os senhores da guerra”. "O Iraque permanecerá sempre comigo", disse o Papa na sua última missa no Irfaque. O Papa Francisco tem manifestado uma especial atenção pelos países islâmicos. Jordânia, Albânia, Turquia, Bósnia, República Centro-Africana, Azerbaijão, Egito, Bangladesh, Emirados Árabes Unidos e Marrocos – todos países onde escolheu visitar e pôr em prática o seu Documento sobre a Fraternidade, de 2019.

Paula Oliveira