Na véspera do final do prazo para a dissolução do parlamento de Israel, os deputados estão a tentar hoje encontrar um compromisso de última hora para evitar uma quarta eleição em menos de dois anos.

Se os parlamentares não conseguirem chegar a acordo sobre um projeto de orçamento para este ano, o Knesset (parlamento) dissolve-se à meia-noite de terça-feira e serão convocadas legislativas para março.

As novas negociações decorrem ao mesmo tempo que começa a campanha de vacinação contra a covid-19 em Israel, com cerca de 370.000 infetados, incluindo mais de 3.000 mortos, desde o início da pandemia.

O diferendo opõe, não o executivo e a oposição, mas os parceiros do Governo “de união e emergência” constituído na primavera pelo primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e o seu ex-rival eleitoral, o líder da coligação centrista Benny Gantz.

Em abril e após três eleições inconclusivas, os dois homens acordaram formar este Governo para enfrentar a crise sanitária e acabar com a mais longa crise política da história do Estado hebreu.

O acordo incluía uma rotação no cargo de primeiro-ministro e estipulava que o governo aprovaria um único orçamento para dois anos (2020 e 2021), mas o Likud, o partido de Netanyahu, propôs a votação de dois orçamentos distintos, o que foi recusado pela formação Azul e Branco de Gantz.

Segundo a imprensa israelita, o diferendo é revelador das tensões entre Netanyahu e Gantz.

Por outro lado, os analistas consideram que a crise orçamental é o caminho para Benjamin Netanyahu convocar novas eleições e assim evitar ceder o poder a Benny Gantz em novembro de 2021, como previsto.

Ou, no mínimo, ter maior margem de manobra para renegociar o acordo de coligação em termos mais favoráveis para o seu partido.

Em agosto, a votação do orçamento foi adiada para dezembro e, se as contas do Estado não forem aprovadas até 23 de dezembro, o Knesset dissolve-se automaticamente.

Numa tentativa declarada para resolver a crise, o partido de Benny Gantz anunciou na noite de domingo para hoje uma nova proposta: realizar uma nova votação para adiar a aprovação do orçamento de 2020 para 31 de dezembro e o do ano 2021 para 5 de janeiro.

Se os deputados votarem contra o adiamento para aquelas datas, serão convocadas novas eleições para 23 de março. O Likud concordou que a proposta fosse apresentada no parlamento.

As novas negociações ocorrem também numa altura em que Netanyahu enfrenta saídas no partido.

O seu antigo ministro Gideon Saar anunciou a criação da sua formação, Nova Esperança, abertamente à direita e já creditado com o segundo lugar em recentes sondagens.

Embora o Likud continue à frente nas intenções de voto, o aparecimento deste novo partido e a subida da formação de direita radical Yamina, de outro antigo ministro, Naftali Bennett, tiram votos a Netanyahu e podem complicar o jogo de alianças pós-eleitorais.

O antigo chefe de Estado das Forças Armadas Benny Gantz, por seu turno, viu os seus apoios desaparecerem e não tem interesse numa nova luta eleitoral, observou Ben-Dror Yemini, colunista do diário israelita Yediot Aharonot.

“Ele (Gantz) sabe que o espera a derrota. E é exatamente por isso que, na sua posição de derrotado, pode dar-se ao luxo de agir com base no que é melhor para o país”, tentando evitar novas eleições, adiantou.

/ BC