Angela Merkel deixará o cargo como uma das líderes mais experientes da Alemanha moderna e um peso-pesado diplomático, através de um legado definido pela gestão de uma sucessão de crises  - crise financeira de 2008, crise dos refugiados - que abalou a fragilidade de uma Europa que se tenta afirmar internacionalmente 

Há 16 anos, a jovem do leste da Alemanha carecia dos atributos há muito associados ao sucesso político. Não subiu na hierarquia como um soldado raso, não tinha uma rede de apoio em posições-chave. Atualmente, o mundo olha para Merkel como uma das grandes responsáveis por gerir muitas das cicatrizes que a Europa exibe.

Merkel olha para o passado/ EPA

Com um doutoramento em química quântica, Merkel aborda a política com uma metodologia epistemológica, lógica e técnica, avaliando uma situação com cuidado, antes de exaustivamente observar as opções e decidir o caminho a seguir.

Apesar de sucessivas tentativas de jornalistas em ter um comentário pessoal sobre aquilo que sentiu depois de ter sido escolhida como chanceler, Angela Merkel teve dificuldade em expressar as emoções, naquela que foi a primeira conferência que deu, quando foi eleita para o cargo em 2005.

"Como se sente, vá lá?", perguntou um repórter dinamarquês, mas Merkel apenas respondeu: "Estou bem, estou de bom humor", acrescentando que estava presa num estado de "concentração intenso" por estar a arquitetar negociações para estabelecer a coligação que moldaria o seu primeiro governo.

Uma trajetória dramática e incomum - para uma mulher, para um alemão oriental e para uma cientista sem formação em direito ou ciências sociais. Uma reação que pinta o retrato de uma mulher que travou o caminho para o cargo mais importante na Alemanha, favorecendo a política em favor do carisma pessoal.

Uma ascensão silenciosa

Merkel nasceu em Hamburgo, mas cresceu em Templin, norte de Berlim, na então Alemanha Oriental comunista. O pai, um pastor protestante, mudou-se para lá com o intuito de supervisionar uma casa pastoral local. Depois de passar a infância na pequena cidade, Merkel estudou física em Leipzig e fez o doutoramento na Academia de Ciências da Alemanha Oriental.

Descrita como uma aluna brilhante, Merkel aprendeu desde cedo a "não se colocar no centro das coisas" para não se expor a si mesma ou à sua família a um escrutínio indevido, de acordo com Stefan Kornelius, biógrafo oficial e editor do jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, Merkel deu discretamente os primeiros passos da sua carreira política quando deixou o seu trabalho como investigadora para ingressar num novo grupo político que se formou no seu bairro. 

Apesar de todo o percurso que Merkel teve de compensar em termos de educação política, ser alemã oriental concedeu-lhe uma série de vantagens: autodisciplina, força de vontade e o silêncio como ferramentas essenciais. De acordo com o jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung, Karl Feldmeyer, “a República Democrática da Alemanha moldou-a de uma forma tão extrema e forte que é inimaginável para alguém que tenha crescido na República Federal. Tudo era uma questão de sobrevivência”.

Mas o que é que levou Merkel a desistir de uma carreira aparentemente bem sucedida no ramo da investigação científica e dedicar-se à política, em toda a sua dimensão volátil? Num perfil assinado por George Packer para a revista New Yorker, o escritor atribui a escolha ao “mistério central de uma vida opaca”. Uma amarga consciencialização de que, como uma cientista oriental, seria rapidamente ultrapassada pelos adversários vindos dos países a Oeste - mais ricos e com mais recursos.

Angela Merkel ao lado de Luthar de Maizière, em 1990/ Bundesarchiv

Merkel nunca falou publicamente sobre por que deixou o mundo da ciência, talvez porque o mundo da ciência nunca realmente a deixou. O pensamento científico continua parte integrante do processo diário de tomada de decisão - e da sua personalidade política. Ciente de que, nos 16 anos que esteve à frente da Alemanha, teve de equilibrar uma reverência histórica a intelectuais como Kant com uma reforçada atenção a líderes fundamentalistas.

Merkel interessou-se por política apenas depois do colapso do regime comunista, aparecendo no palco político pela primeira vez quando, em 1990, o partido Demokratischer Aufbruch - Despertar Democrático, do qual fazia parte, se fundiu com o partido União Democrática Cristã (CDU) na Alemanha Oriental (que mais tarde se uniu ao homólogo Ocidental) e Merkel passou a porta-voz adjunta do governo da República Democrática Alemã, liderado por Lothar de Maizière.

Aquele que foi o primeiro e último primeiro-ministro eleito da RDA lembra Merkel como alguém que não tinha uma figura exuberante. “Não parecia importar-se com a aparência, de todo”, disse de Maizière, sublinhando que a jovem “parecia uma cientista típica da RDA. Usava uma saia larga, sandálias como Jesus e um corte de cabelo curto.”

O incómodo foi tal que De Maizière chegou a pedir a um funcionário que a levasse às compras. Naquele mesmo ano, Merkel foi eleita para o Bundestag na primeira eleição geral da Alemanha reunificada.

No entanto, a primeira posição política importante de Merkel chegou sob a asa de Helmut Kohl, o chanceler da reunificação, que mais tarde a acusaria de “destruir a sua Europa”, e que a tratava por “mein Mädchen” - minha menina. Por Kohl, foi nomeada ministra federal para as mulheres e os jovens.

Durante o seu tempo de mandato, Merkel desenhou a Lei da Igualdade de Oportunidades, que visava melhorar a situação profissional das mulheres e foi responsável por garantir que todas as crianças na Alemanha tivessem o direito legal de ter uma vaga na creche - o que foi um grande passo para as políticas familiares da Alemanha Ocidental na época.

Esteve também na primeira Conferência do Clima da ONU em Berlim, em 1995, que se traduziu no primeiro compromisso do país com a redução global dos níveis de CO2 no ar.

Merkel com o antigo Chanceler Helmut Kohl, em 1991/ EPA

 

Evelyn Roll, que escreveu o livro “O caminho de Angela Merkel para o poder”, recorda que o apelido “mädchen” nem sempre tinha uma conotatividade fraterna. Kohl, gozando do estatuto apoteótico de estadista, referia-se a Merkel como “minha menina” quando a apresentava a dignitários estrangeiros. 

As reuniões do gabinete eram dominadas por Kohl e, embora Merkel estivesse bem preparada, raramente falava. No entanto, dentro do seu ministério, Merkel era respeitada pela eficiente absorção de informação e temida pela sua franqueza - tanto que adquiriu o apelido de ‘Angie, a Cobra’ e uma reputação de aceitar poucas críticas.

Quando, em 1994, Merkel recebeu a pasta do ambiente, demitiu rapidamente o principal funcionário público do ministério depois de ele ter sugerido que necessitava da sua ajuda para administrar as coisas.

No início da sua carreira, Merkel contratou uma jovem chamada Beate Baumann para ser sua assistente. Baumann, que continua a ser a sua conselheira mais influente, era a número 2 perfeita - leal e discreta o suficiente para se confundir com as paredes do Bundestag. De acordo com algumas publicações, era a única assessora capaz de falar com Merkel com total franqueza.

Exemplo. Gerd Langguth, que escreveu “Angela Merkel: Ascensão ao Poder”, conta que Merkel começou a chorar convulsivamente durante as negociações para uma lei de resíduos nucleares durante uma conferência sobre o aquecimento global das Nações Unidas em Berlim. Foi Beate Baumann que a abanou e disse para se recompor antes de regressar e negociar um acordo. 

Gerhard Schröder, membro do partido SPD e antecessor de Merkel no cargo de chanceler, foi rápido na crítica e descreveu o desempenho da, na altura, ministra do ambiente de "lamentável". Numa entrevista pouco depois com o jornalista Herlinde Koelbl, Merkel respondeu: “Vou colocá-lo num canto, assim como ele fez comigo. Ainda preciso de tempo, mas um dia chegará a hora. Já estou ansiosa ” 

A hora eventualmente chegou, nove anos depois

Em 1998, o mandato de Kohl como chanceler chegava ao fim, ao mesmo tempo que Merkel subia na hierarquia do partido. Em novembro de 1998, foi eleita secretária-geral da CDU e, mais tarde naquele ano, casou-se com o químico quântico Joachim Sauer, marido de longa data.

Mas o tempo de provação chegou no mês de novembro de 1999, quando o C.D.U. foi abalroado por um escândalo de financiamento de campanha, com acusações de doações em dinheiro e contas bancárias secretas. Helmut Kohl e o seu sucessor como presidente do partido, Wolfgang Schäuble, estavam ambos implicados. Porém, Kohl era tão admirado que ninguém no partido ousou criticá-lo. Merkel viu uma oportunidade. 

O jornalista Karl Feldmeyer recebeu um telefonema. Do outro lado, Merkel afirmava que que queria fazer alguns comentários para o jornal Frankfurter Allgemeine.

“Sabe o que quer dizer?”, perguntou Feldmeyer. “Sim, tenho escrito”, respondeu Angela Merkel antes de o jornalista sugerir que ela escrevesse, em vez, um artigo de opinião. Cinco minutos depois, um fax chegava e o patricídio começava. Merkel apelava ao partido que abandonasse o líder de longa data, em benefício de um futuro mais transparente.

“O Partido deve aprender a caminhar agora e ousar enfrentar futuras batalhas com os seus oponentes políticos sem o seu velho cavalo de guerra, como Kohl sempre gostou de se definir. Nós, que agora somos responsáveis ​​pelo partido, e não tanto Helmut Kohl, decidiremos como abordar esta nova era”, escreveu Merkel num artigo publicado sem o conhecimento de Schäuble, o presidente do partido.

A “menina” libertava-se do pai numa tentativa de tomar o seu lugar na história. Poucos meses depois, conseguiu-o. Merkel foi eleita presidente do C.D.U e Helmut Kohl remetido ao afastamento da vida política. “Colocou-lhe uma faca nas costas - e girou duas vezes”, disse Feldmeyer, numa entrevista ao New Yorker, destacando que, nesse momento, muitos alemães começaram a prestar atenção a Angela Merkel.

Anos depois, o jornalista e social-democrata Michael Naumann sentou-se ao lado de Kohl durante um jantar e perguntou-lhe: "Herr Kohl, o que quer ela exatamente?"

"Poder", respondeu em poucas palavras Kohl. “Trouxe a minha assassina, coloquei a cobra no meu braço.”

Depois de Schäuble pedir a demissão, Merkel teve o caminho livre para se tornar líder do partido. Em abril, foi eleita com 895 dos 937 votos, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo.

Os primeiros anos de Merkel como líder do partido não foram fáceis, no entanto. A recém-eleita viu-se a travar uma luta com Edmund Stoiber, presidente do partido associado da CDU na Baviera, a União Social Cristã (CSU).

Naquele que estará certamente no Top 10 de pequeno-almoços mais famosos do mundo, em Wolfratshausen - cidade natal de Stoiber -, Merkel decidiu retirar a sua candidatura para ser a líder conjunta dos dois partidos numa nomeação a chanceler em favor de Stoiber. Mas, aquilo que poderia ser visto como uma derrota, acabou por funcionar a longo prazo. Stoiber perdeu as eleições gerais, ficando mais enfraquecido na aliança com a CDU.

Crise da Zona Euro

Por muito que a sua postura em público desse a entender outra coisa, o círculo interno de Angela Merkel caracteriza-a como alguém cheia de vida e de humor fora do espectro da comunicação social.

Em conversas sem o gravador a rolar com jornalistas alemães, é referido que Merkel reconstrói conversas inteiras com outros líderes mundiais, imitando-os caricaturisticamente. Entre os alvos, Kohl, Putin e o ex-papa Bento XVI. Durante a crise da Zona Euro e depois de uma reunião com Nicolas Sarkozy, o antigo presidente francês, Merkel fez questão de sublinhar o pé nervoso do francês.

As eleições parlamentares de 2005 não produziram um vencedor claro: a coligação CDU/CSU obteve apenas 1 ponto percentual a mais do que o SPD. Mas, depois de o líder social-democrata e chanceler cessante Gerhard Schröder ter renunciado ao cargo, Angela Merkel esteve no centro de uma grande coligação do CDU, com o CSU e o SPD. Assumindo, em novembro, o cargo de chanceler - a primeira mulher na história da Alemanha.

Ao longo do trajeto político, Merkel manteve-se o mais próximo possível da opinião pública alemã. O comentador do jornal Die Welt Alan Posener refere que, depois de quase perder a chancelaria para Schröder, convenceu-se de que seria “tudo para todas as pessoas." 

Na eleição parlamentar de 2009, o bloco conservador de Merkel obteve a menor percentagem de votos em 60 anos, mas emergiu como o maior grupo parlamentar por alguma distância. 

Merkel estava de volta com um governo de coligação entre CDU, CSU e os liberais do FDP, num momento em que todos os olhos estavam postos na violenta crise económica que assolou a Grécia. Os bancos alemães detinham a maior parcela da dívida grega, colocando o destino de 11 milhões de pessoas nas mãos da chanceler.

Chanceler Merkel e o ministro das Finanças debatem programa de resgate para a Grécia/ EPA

 

Tomando decisões mais inclinadas para um estilo de político que está mais consciente de seu eleitorado do que do seu lugar na história, quando a dívida chegou a níveis críticos, Merkel demorou a investir o dinheiro dos contribuintes alemães para um fundo de resgate e, em 2011, bloqueou uma proposta francesa e americana para a realização de um projeto europeu coordenado para fazer frente à crise.

O escritor Peter Schneider comparou-a a um motorista no centro de uma nebulina feroz: “Se só vês cinco metros, não cem metros, então é melhor teres cuidado, não falares muito, agires passo a passo. Sem visão. ”

A Alemanha tinha de longe a economia mais forte da Europa, com uma base industrial e exportações robustas que beneficiaram com o enfraquecimento do euro.

Mas o seu predecessor, Gerhard Schroeder, cujas reformas económicas estavam a começar a surtir efeito quando deixou o cargo, merece parte do crédito.

Putin e uma má relação com cães

Boris Reitschuster, biógrafo de Putin, assevera uma história que permite desvendar um pouco da cortina de como o czar do século XXI se tornou um revivalista da realpolitik

Quando o Muro de Berlim caiu, Putin era um K.G.B. em Dresden. Fluente em alemão e munido com uma pistola, foi capaz de  impedir que uma multidão de alemães orientais invadisse o quartel general dos serviços secretos e pilhasse centenas de arquivos, que ele então destruiu. 

Doze anos depois, conta Reitschuter à BBC, Putin dirigiu-se ao Bundestag, “declarando que a Rússia é um país europeu de mente amigável", cujo "objetivo principal é a garantia da paz e da estabilidade no continente''. Muito mais apaziguador do que incendiário, Putin elogiou a democracia e denunciou o totalitarismo, recebendo aplausos de uma plateia que incluía Merkel.

Angela Merkel observa atentamente os movimentos do labrador preto de Putin / EPA

Mas Merkel, que também é fluente em russo e que passou por várias repúblicas soviéticas durante a juventude, conhecia bem a frustração de muitos países de leste quando confrontados com as tomadas de posição ocidentais. E embora, de acordo com a Bloomberg, Merkel tenha no seu gabinete um retrato de Catarina, a Grande, tem poucas ilusões sobre antigos K.G.B.

“Isso é o típico discurso da K.G.B, não confiem neste homem”, disse Merkel após o discurso de Putin ao parlamento em 2001. Num comentário no jornal Die Zeit, o autor Bernd Ulrich sublinhou que a chanceler alemã sempre foi cética de Putin, mas nunca o detestou. Detestar seria demonstrar demasiada emoção”.
 

Quando se encontram, Putin e Merkel falam alemão - alguns autores atribuem isto ao facto de Putin falar melhor alemão do que Merkel fala russo - e o presidente russo tem o hábito de corrigir o seu intérprete para garantir à chanceler que está a prestar atenção. Em 2007, relata a revista New Yorker, os dois estavam a discutir o fornecimento de energia na residência do presidente em Sochi quando Putin trouxe Putin o cão para a sala onde estavam sentados. Merkel mostrou-se visivelmente assustada, uma vez que, desde que foi mordida em 1995, tem pânico de cães. 

De pernas bem abertas, Putin suspirou “tenho a certeza de que se vai comportar”. Merkel respondeu à letra - e em russo - “Afinal, não come jornalistas”. A imprensa alemã atacou-a por isto, criticando a agressividade desmedida da líder, o que mereceu uma interpretação mais profunda.

“Entendo por que tem de fazer este tipo de coisas - para provar que é um homem”, disse a um grupo de repórteres. Putin “tem medo da sua própria fraqueza. A Rússia não tem nada, nenhuma política ou economia de sucesso. Tudo o que eles têm é isto”.

Wir schaffen das

Numa altura em que o pior da crise económica parecia já ter sido ultrapassada, a Europa mergulhou na pior crise migratória no continente desde a Segunda Guerra Mundial. Merkel adotou uma política temporária de portas abertas para os sírios que fugiam de uma guerra sem precedentes. Como resultado, a Alemanha recebeu o maior número de novos pedidos de asilo na UE.

Pontos mortos começaram a aparecer na atitude de boas-vindas da Alemanha depois de muitos migrantes terem começado a viajar para a Europa Ocidental, ao mesmo tempo em que os medos sobre uma ameaça à segurança se multiplicavam. Merkel, agora amplamente conhecida como ‘Mutti’ e vista como uma espécie de mãe da Alemanha, defendeu a estratégia daqueles que a acusaram de não entender a gravidade da situação.

A frase que Merkel usou, Wir schaffen das, tornou-se memorável, talvez mais porque, nas semanas e meses que se seguiram, seria repetidamente citada por aqueles que acreditavam que a mensagem otimista foi responsável pela travessia de milhões de migrantes no Mediterrâneo. “As ações de Merkel, agora, serão difíceis de corrigir: as suas palavras não podem ser ignoradas”, escreveu o jornal The Spectator. “Exacerbou um problema que estará conosco por anos, talvez décadas.”

O partido Alternative für Deutschland (AfD), fundado dois anos antes com base numa mensagem anti-euro, descobriu um novo alvo: quando Merkel disse "Nós vamos aguentar", afirmou o partido de direita, realmente quis dizer "Vocês vão administrar", referindo-se ao público alemão.

Merkel tira uma selfie com um refugiado, setembro de 2015 / AP

 

Nos seguintes anos, o mundo testemunhou o caso das agressões sexuais da véspera de Ano Novo em Colónia, o ataque terrorista no Bataclan, em Paris, e o atropelamento mortal no mercado de Natal de Berlim e um sentimento anti-migração parecia crescer perante a população alemã. “Não queremos aguentar isto!”, proclamou o dirigente da AfD Alexander Gauland, em outubro de 2015.

Em 2017, havia uma visão predominante de que a estratégia ‘Wir schaffen das’ seria a queda de Merkel, um "erro catastrófico" como Donald Trump disse em janeiro daquele ano, ou “a pior decisão que um líder europeu já tomou nos tempos modernos”, como Nigel Farage sublinhou à Fox News.

Mas a morte política de Merkel foi anunciada cedo demais. Antes da pandemia assolar o globo, a chanceler continuava a arquitetar o destino da maior economia da Europa, com índices de aprovação que remontam a 2015. Quando Merkel abandonar o cargo, é mais provável que seja substituída por um centrista, do que alguém que advoga uma ruptura com a sua estratégia para a migração e acolhimento de refugiados.

Deslumbrada com Trump? "Ah. Tudo bem"

De acordo com alguns relatos na imprensa alemã, Merkel planeava deixar a política depois de o seu terceiro mandato terminar em 2017, mas foi persuadida a permanecer no cargo- alguns dizem por Obama - depois de Donald Trump ter sido eleito presidente dos Estados Unidos. 

Merkel começou por oferecer a Trump toda a sua cooperação, mas expôs as suas condições com clareza. “A Alemanha e a América estão vinculadas por valores comuns - democracia, liberdade, respeito pelo estado de direito e pela dignidade de cada pessoa, independentemente da sua origem, cor de pele, religião, género, orientação sexual ou ponto de vista político", disse-lhe.

Merkel aproveitou ainda todas as oportunidades possíveis em encontros oficiais e telefonemas para sublinhar que a ordem do mundo liberal, algo que definiu como sacrossanta, estava baseada na democracia e nas instituições multilaterais.

No entanto, os dois divergiram e entraram em confronto várias vezes, especialmente por causa da participação dos EUA na NATO. Entre telefonemas longos e tensos, destaque para um em que Trump chamou a Merkel “estúpida”, de acordo com uma gravação obtida pela CNN.

Bilateralmente, Merkel aproveitou um discurso durante o início da pandemia para criticar o populismo e as fake news. “Como observamos em primeira mão, não se pode lutar contra a pandemia com mentiras e desinformação, tal como não se pode combater com ódio e incitação à violência”, um comentário largamente atribuído à gestão da crise da covid-19 na Era Trump.

Ainda em agosto de 2020, Merkel pareceu controlar uma gargalhada violenta quando um repórter lhe perguntou se era verdade - como tinha alegado Richard Grenell, ex-embaixador na Alemanha - que Trump a tinha deslumbrado.

"Ele fez o quê?", perguntou ao repórter. “Deslumbrado”, repetiu o repórter. "Ah, tudo bem", disse Merkel, parecendo confusa e acrescentou com uma risada: “ Não falo sobre discussões internas”.

 

 

Uma relação conturbada e exacerbada, quando comparada com a abordagem de Angela Merkel face a Joe Biden, 46.º presidente dos Estados Unidos. Quando foi anunciado que Biden conquistou os 306 votos do colégio eleitoral, Merkel deu um discurso particularmente comovente e pessoal a congratulá-lo, ignorando as várias alegações de Trump sobre uma suposta fraude eleitoral.

Outros líderes, como Boris Johnson, Justin Trudeau e Emmanuel Macron emitiram comunicados a congratular Biden, mas foram poucos os que aproveitaram a ocasião, como Merkel, para lançar um comentário sobre o estado das relações globais e os desafios que o novo presidente dos EUA irá enfrentar, muitos deles criados pelo seu antecessor.

Uma liderança serena

Naquele que foi o seu primeiro discurso à nação sobre a pandemia, numa altura em que ninguém parecia ter respostas acertadas sobre o que podia esperar a população, a chanceler alemã apelou calmamente à razão e à disciplina dos cidadãos para travar a disseminação do vírus, reconhecendo, como uma mulher que cresceu na Alemanha Oriental, que é difícil desistir das liberdades, mas sublinhou que, como um cientista advogaria, os factos não mentem.

 

 

Depois de um dos mais importantes discursos e ainda vestida com o mesmo casaco azul em que apareceu na televisão, Merkel foi até um supermercado local para comprar comida, vinho e papel higiénico e foi levada calmamente até ao seu apartamento em Berlim. Para ela, foi uma paragem banal para compras, mas as fotos tiradas por alguém no supermercado foram partilhadas mundialmente, como um sinal de uma liderança serena no meio de uma tempestade global.

Merkel fotografada, após o discurso, num supermercado/ D.R

Durante a pandemia, Merkel reafirmou os seus pontos fortes tradicionais e teve uma possibilidade de se afastar das constantes disputas dentro da coligação que governava e nas guerras internas para encontrar um sucessor.

Com Merkel ao leme, a Alemanha demonstrou elementos de sucesso nas quatro fases da estrutura de preparação e resposta da OMS: prevenir, detetar, conter e tratar. No entanto, a partir de outubro de 2020, o país viveu - em consonância com o resto da Europa - um grande aumento de casos e mortes que perdurou até ao verão de 2021.

O sucesso inicial no controlo da pandemia deu-se também por causa de um bom sistema de saúde e sólidas instituições científicas especializadas. O desenvolvimento precoce da capacidade de testagem, uma estratégia eficaz de isolamento de casos de risco e uma rede sólida de Unidades de Cuidados Intensivos também foram armas fundamentais para controlar o vírus.

A longevidade política de Merkel já é histórica. Entre os líderes democráticos da Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial, fica atrás apenas de Helmut Kohl, que levou o país à reunificação durante o seu mandato entre 1982-98.

Sobre um legado, Merkel insiste que devem ser os outros a julgar. Ainda assim, destacou algumas conquistas numa rara aparição de campanha há breves meses, começando com a redução do número de desempregados, de mais de 5 milhões em 2005, para menos de 2,6 milhões em 2021.

Quando chegou a chanceler depois de Schröder, Merkel herdou um plano para sair da energia nuclear, mas acelerou-o abruptamente após os colapsos da central japonesa de Fukushima, em 2011. Mais recentemente, deu início à saída da Alemanha da energia produzida a carvão.

Nos seus primeiros anos à frente do país, Merkel foi frequentemente referida como a “chanceler do clima”, mas também recebeu críticas por se mexer demasiado devagar; o governo alemão, este ano, antecipou a data para reduzir as emissões de gases de efeito estufa para "zero líquido" até 2045, depois de um tribunal superior ter decidido que os planos anteriores colocavam o peso nos ombros dos jovens.

 

Merkel, a primeira mulher chanceler da Alemanha / EPA

 

No discurso, Merkel elogiou, ademais, as melhorias nas finanças públicas da Alemanha, o que permitiu uma paragem na acumulação de nova dívida a partir de 2014 e até ao início da pandemia. A oposição argumenta que Merkel economizou demasiado nos investimentos necessários em infraestrutura.

“Também poderia falar sobre como salvamos o euro”, discursou. A abordagem à austeridade de Merkel foi profundamente ressentida em partes da Europa e controversa entre os economistas, mas permitiu que fosse superada a relutância para resgatar os países mais afetados pela crise económica.

Seja qual for o veredicto final, Merkel tem razões para comemorar um fim histórico: Em 16 anos ao comando da maior economia da Europa, acabou com o recrutamento militar, colocou a Alemanha no rumo para um futuro ausente de energia nuclear e fóssil, permitiu a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e introduziu um salário mínimo nacional.

Na língua de Goethe, há uma palavra que capta, provavelmente, o estilo retórico árido e inexpressivo de Angela Merkel: ‘vorsichtigkeit’, que significa, grosso modo, prudência. A líder alemã, que vai abandonar o cargo aos 67 anos, deverá deixar ao próximo chanceler a difícil tarefa de substituir alguém cujo uma recente sondagem mostra que teria o apoio para um fictício cargo de "presidente da Europa".

Para além disso, o sucessor dos anos do "merkelismo" terá de liderar um país que regressa à normalidade e de fomentar uma economia que precisa de um plano ambicioso no pós-covid-19. Tudo isto, ao mesmo tempo que terá de evitar um crescimento da extrema-direita que, na AfD, tem um veículo para se afirmar como a terceira força política do país.