Depois de quase 20 mil toneladas de combustível terem sido derramadas num rio na região de Norilsk, no extremo norte da Rússia, as autoridades foram obrigadas a declarar uma situação de “emergência”, levantando preocupações entre ambientalistas e residentes sobre as consequências do aquecimento global na Sibéria.

O derrame é considerado a maior catástrofe ambiental do Ártico e uma das maiores da história recente da Rússia. As razões por trás do acidente fizeram soar os alarmes e investigações preliminares por parte da Nornickel, a empresa responsável, levam a crer que o tanque de combustível foi quebrado devido ao degelo do subsolo permanentemente congelado, ou permafrost, no qual foi construída.

 

Trançando uma "perspectiva nefasta para o futuro", as autoridades fiscais russas ordenaram uma investigação a todas as infraestruturas, tidas como "especialmente perigosas", situadas em zonas onde está o descongelamento. Desde centrais nucleares a gasoductos.

O derrame de petróleo em Norilsk indignou o presidente russo, Vladimir Putin, que durante uma discussão televisa com o presidente da Nornickel, Vladímir Potanin, o homem mais rico da Rússia, fez ecoar duras críticas à gestão da empresa por não ter previsto o que aconteceu.

“Se tivessem sido feitas mudanças infraestruturais a tempo, não estávamos perante esta catástrofe ecológica. Estudem isto o máximo possível dentro da empresa”, disse Putin. 

A posição de Putin segue a mesma linha de muitos especialistas ambientais que durante muitos anos criticaram a política ambiental da Nornickel, um dos principais produtores mundiais de níquel e paládio.

A empresa de Potanin já se comprometeu a assegurar os custos da limpeza e recuperação da área - cerca de 134 milhões de euros. Porém, o desastre ambiental levantou outras preocupações: cerca de metade de todas as infraestruturas em território russo estão construídas em cima de permafrost.

  

Segundo Marina Leibman, especialista do Instituto de Criosfera da Rússia, o aquecimento global, juntamente com políticas urbanas e ambientais que não têm em conta os riscos provocados, está a ter um grande impacto nas infraestruturas do país.

“O perigo está a ser subvalorizado e nem há fundos suficientes para conduzir estudos ou auditar edifícios que violem as normas de construção”, afirma a especialista ao jornal El Pais.

As infarestruturas na Sibéria, como no Alasca ou no Norte do Canadá, estão construídas sob pilares elevados do solo congelado. Com as temperaturas do Círculo Ártico a atingirem o dobro da média global, o degelo está a atingir o permafrost e a provocar rachas visíveis em vários edifícios. Putin já comandou uma investigação a todas as infraestruturas que evidenciem marcas semelhantes provocadas pelo aquecimento global.

  

Norilsk, a zona do derrame, acolhe várias centrais nucleares e termoelétricas, tal como gasoductos, depósitos de petróleo e linhas ferroviárias. Para combater as consequências ambientais, o governo anunciou que vai criar um sistema para monitorizar as mudanças no subsolo e avaliar os riscos económicos e sociais do degelo.

Daria Shapovalova, investigadora do Instituto Ártico e professora na Universidade de Aberdeen, espera que a catástrofe ambiental “finalmente traga a atenção para os efeitos do aquecimento global no Ártico” e que isso se traduza numa ação dos mais importantes círculos políticos da Rússia.  

  

“O derrame é uma chamada de atenção não só para aqueles que operam grandes indústrias no Ártico, mas também para os decisores políticos. Hoje, as políticas de combate ao aquecimento global no Ártico não são suficientes”, afirma a investigadora numa carta aberta enviada ao governo russo.

Não só em Norilsk, mas também em toda a Sibéria, o clima quente e as precipitações baixas têm secado a vegetação e provocado incêndios de grandes dimensões, um cenário não visto desde o ano passado.