Falta menos de um mês para completar um ano desde que a covid-19 foi detetada, em Wuhan, na China. Uma doença que já matou 1.263.890 pessoas, fez mais de 50,9 milhões de casos de infeção e está a destruir a economia de vários países em todo o mundo.

No entanto, as boas notícias começam a chegar e há um casal que pode ter em mãos a solução para este problema demolidor. Özlem Türeci e Uğur Şahin são a "dream team" que está por detrás da vacina experimental que está ser desenvolvida pela empresa de biotecnologia alemã BioNTech em parceria com a farmacêutica norte-americana Pfizer e que, na segunda-feira, anunciou ter uma eficácia de 90% contra a covid-19. 

Apesar de ser um grande passo no combate ao vírus, os especialistas alertam que é preciso cautela na forma como estas informações são recebidas, uma vez que se tratam ainda de dados preliminares. Conhecido pela sua humildade e modéstia, Uğur Şahin, diretor-executivo da BioNTech, disse que estes resultados são "uma vitória para a inovação, ciência e de um esforço de colaboração global".

A BioNTech, em parceria com a Pfizer, ultrapassou algumas das concorrentes mais bem posicionadas na corrida por uma vacina contra a covid-19, colocando Özlem e Uğur na lista dos 100 mais ricos da alemanha, neste outono. De anotar que a empresa de biotecnologia biotecnologia foi avaliada em 21,9 mil milhões de dólares (18,5 mil milhões de euros).

Quem são?

Ambos filhos de imigrantes turcos que se mudaram para a Alemanha em 1960, Sahin, de 55 anos, nasceu em Iskenderun, na Turquia, e mudou-se para Alemanha com quatro anos, onde o pai era funcionário da Ford.

Türeci, de 53, é diretora médica da BioNTech, cresceu em Lastrup, na Alemanha, onde o pai, nascido em Istambul, trabalhava como cirurgião num hospital católico. Casaram em 2002 e quatro anos depois tiveram o primeiro filho.

Tinham a ambição de montar um laboratório que investigasse a forma como o sistema imuniológico poderia ser treinado para atacar céculas cancerígenas, uma vez que era muito difícil conseguir fundos para pesquisas científicas.

A primeira empresa que fundaram, em 2001, chamava-se Ganymed Pharmaceuticals e foi pioneira em imunoterapia com anticorpos contra o cancro. Uns anos mais tarde, em 2016, foi vendida a uma farmacêutica japonesa - Astellas - por 1,18 mil milhões de euros.

A BioNTech foi fundada em 2008, em conjunto com o oncologista austríaco Christoph Huber, e hoje conta com 1.300 funcionários. Começaram por desenvolver tratamentos de imunoterapia para o cancro, com base no código genético, para treinar o corpo humano a produzir os seus próprios anticorpos.

Como surgiu a ideia de criar uma vacina contra a covid-19?

A 24 de janeiro deste ano, Sahin leu o primeiro artigo científico sobre covid-19. Era uma sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, chamou seis trabalhadores e informou-os de que o próximo passo era encontrar uma vacina contra o coronavírus. Hoje em dia a equipa conta com 500 investigadores.

A farmacêutica Pfizer, que já havia colaborado com a BioNTech numa vacina contra a gripe, foi rapidamente convencida a ajudar nos custos de desenvolvimento e distribuição. Em março, quando a Alemanha entrou em seu primeiro bloqueio, a BioNTech já havia desenvolvido 20 candidatos para uma vacina, dos quais iria testar cinco para reações imunológicas.

Na segunda-feira, dia 9 de novembro, depois que uma análise provisória, concluiu-se que vacina candidata é 90% eficaz na proteção das pessoas contra a transmissão do vírus. Uma percentagem inesperada, uma vez que, até a data, a maioria dos reguladores ao nível da saúde admitia aprovar uma vacina que fosse 50% eficaz, protegendo metade daqueles a quem fosse administrada. 

Questionado sobre quando ele próprio tomaria a vacina, Şahin respondeu:

Assim que a vacina for permitida, serei um dos primeiros a tomá-la. Mas primeiro temos que garantir que a vacina chega àqueles que precisam urgentemente dela: especialmente os idosos, pessoas com outras patologias e profissionais de saúde", disse ao site de notícias alemão Business Insider.

Os ensaios clínicos da Pfizer deverão ainda prosseguir, pelo que há possibilidade de a taxa de eficácia da vacina se alterar. Os ensaios clínicos da fase 3 envolveram mais de 43 mil pessoas e, segundo a farmacêutica, as pessoas de minorias étnicas parecem estar tão bem protegidas quanto as restantes. 

Os resultados desta última fase de testes deverão estar concluídos até ao final de novembro, segundo a farmacêutica norte-americana, e deverão nessa altura ser submetidos aos reguladores, pelo que a vacina poderá mesmo estar acessível a profissionais de saúde antes do final do ano. 

Os testes da vacina têm decorrido nos Estados Unidos, Alemanha, Brasil, Argentina, África do Sul e Turquia, e demonstraram que uma proteção de 90% contra a covid-19 é atingida sete dias depois da segunda dose.

A Pfizer acredita que conseguirá fornecer 50 milhões de doses da vacina no final de 2020 e cerca de 1,3 mil milhões até ao final de 2021. 

Cláudia Évora